24 março, 2010

O HOMEM DA CAMISOLA ALEGADAMENTE CONTRAFEITA

Cheguei, agora, dos Correios. Ou porque havia mais movimento, ou porque eram complexos os propósitos dos presentes, instalou-se alguma demora. Nada de extraordinário.
Sentado, um indivíduo vestido com uma camisola Timberland, começa a perorar para a pessoa do lado. Que não podia ser. Que pusessem mais gente. E os funcionários públicos. Uma vergonha. E as reformas. E os que fazem greve. E os juízes que atrasam tudo. Enfim, um país inteiro, zurzido de alto a baixo, com um vocabulário da fase pós-analfabetismo no tom de um Cícero. Cambada de preguiçosos. E os advogados que só querem é dinheiro. E os dos bancos que pagam menos juros. E os deputados. E os médicos que se enganam. E os professores que querem ser “ excelentes pa se reformar mai cedo”.
À menção da palavra “professores”, virei ostensivamente o rosto para ele e fixei-o longamente. Deve ter-se sentido incomodado porque baixou os olhos. Eu não desviei os meus. Ainda o fixei com mais insistência. Calou-se.
Enquanto diziam o número da minha senha, fui pensando que o problema devia ser precisamente o facto de ele nunca ter sido excelente em nada. Nem em aguentar um olhar bravo.
Mas o seu a seu dono: deve ser excelente a comprar camisolas Timberland.

1 comentário:

jrd disse...

A propósito de contrafacção (metafórica), creio que estamos "sintonizados". Daí que me atreva, mais uma vez, a sugerir-lhe um poste, para ler se tiver tempo e paciência:

http://bonstemposhein.blogspot.com/2007/02/o-crocodilo.html