31 março, 2010

NOLI ME TANGERE


Vivemos rodeados de milhares de imagens. Graças a Gutenberg e, mais tarde, à internet, vivemos também rodeados de milhares de palavras. A quantidade de informação que se pode obter hoje num simples dia é maior do que antigamente durante toda uma vida. Daí que hoje o valor de uma simples frase ou imagem perdidas num oceano de frases ou imagens seja muito diferente do seu valor antes da era técnica.
A frase dita por Jesus a Madalena "Noli me tangere" é um bom exemplo. Pensemos nela num tempo em que não havia televisão, filmes, fotografia, livros jornais, revistas, Internet.
Já no século XI há objectos de culto que descrevem o episódio. E surge pintado em frescos, vitrais de igrejas góticas, esculpido em pórticos, baixos-relevos, medalhas, ícones bizantinos. Muitos dos grandes pintores não resistiram a pintar o gesto de Jesus. O que aqui se vê é de Correggio, pintado em 1525.
Compreende-se. Qualquer episódio bíblico era, pela sua natureza, um mythos. Uma história do domínio do maravilhoso, uma narrativa que provocava assombro, ocorrida num tempo e espaço sagrado.
Há quem diga que a ciência mata a fé. Não sei. Há cientistas que acreditam em Deus, no Espírito Santo, na ressurreição de Cristo, nos milagres. A técnica, sim, mata a fé. Porque a técnica massifica a imagem e a palavra. O "Noli me Tangere", seja a frase, seja a imagem, é hoje recebido com o mesmo à vontade e indiferença de quem faz zapping.
A religião encontrou na técnica o seu Gólgota, o seu lugar da caveira.

1 comentário:

jrd disse...

Já não há mais intocáveis...