04 março, 2010

EMBALSAMENTO

Regresso à entrevista radiofónica com a violoncelista Madalena Sá e Costa. Nonagenária e com a esmerada educação de menina que toca violoncelo e fala francês, conservou a omissão dos artigos definidos antes dos substantivos ou pronomes: "Um dia, fui com meu pai a um concerto...", "Eu e minha irmã gostávamos de", "Em casa de meus pais".
Madalena Sá e Costa pode falar assim porque é uma simpática velhinha a quem tudo se perdoa. Não fora isso e cairia no domínio da comédia e do risível. Há territórios que, no século XX, permitiram uma aproximação entre as classes altas e baixas. Um deles é o da linguagem. As classes baixas não passaram a falar melhor. As classes altas é que passaram a falar pior.
Enquanto a ouvia tive uma sensação idêntica à de quando se entra na sala de um caçador com animais embalsamados. Parecem vivos e conservaram a expressão de quem vai atacar. Mas não passam apenas de uma curiosidade que já não mexe com a vida de ninguém.

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