16 março, 2010

CENAS DA VIDA COMERCIAL II

Por duas vezes me encontrei nesta situação. Passei por uma montra, num centro comercial, olhei uma pulseirita ou colar que estavam no manequim e entrei para comprar. Pois não podia ser. Poderiam reservá-los até que a montra fosse transformada e as peças retiradas de lá. Explicação: a montra era feita por vitrinistas e não podiam mexer-lhe. E pensa o leitor que a montra era assim qualquer coisa de fabuloso? Não. Dois manequins vestidos como se vestem as mulheres que se vestem em série. Mais nada. Vulgar.
Na semana passada, repetiu-se a cena. Entrei para ver uma pulseira e a menina informou não poder retirá-la da montra que só seria transformada na segunda à noite. Disse que, como lá passaria terça pela hora do almoço, não haveria necessidade de reservar. Hoje, quando cheguei, a pulseira já fora vendida. Tudo bem, pulseiras há muitas. No entanto, não quis deixar de pedir que, embora sabendo que eram as ordens recebidas, transmitisse à chefia que aquilo era má técnica de marketing. A compra da pulseira, do colar, do cinto é uma compra de impulso. É a pessoa que passa, vê, entra e leva. Pode não estar disposta a voltar lá, pode estar só de passagem. E queixam-se, queixam que vendem pouco.

Enquanto escrevia isto, a minha memória voou para a minha adolescência em Faro. Havia uma loja, penso que ainda existe mas não sei se ainda tem o mesmo glamour. Era um sonho. Todas as inacessíveis e fabulosas marcas lá estavam. Entrava-se na loja por um corredor ladeado de duas montras muito longas e estreitas. Essas sim. Lembro-me de uma montra de Inverno fabulosa. A ideia da decoração tinha sido genial. Normalmente, o conceito de férias e de viagem aparece nas montras de Verão. Ali, alguém tinha pensado em associá-lo ao Inverno. Um prodígio: casacos de caxemira irrepreensível, blusões de aviador e camisolas de cortar o fôlego, gabardinas e estolas de pele, camisas de chiffon a brilhar sob os tweeds, uma capa Valentino orlada a vison que assombrou os meus sonhos durante muito anos, sobretudos escuros com um velho jornal debaixo do braço, malas de viagem, muitas malas, malas para chapéus, malas entreabertas de onde saíam negligés de seda preta, colares de pérolas caídos no chão e mapas e binóculos e livros velhos e chapéus. Era a gare de Istambul antes da partida do Expresso do Oriente, eram as luzes da estação mal alumiadas como aquela onde o Ega se despediu de Maria Eduarda, eram os hotéis de passagem, era um filme de amor, era uma história de espiões, era o sonho.
Como essa, houve muitas. As empregadas temiam ter de ir buscar alguma coisa ao fundo da montra. Mas iam. Descalçavam-se e iam. Contou-me uma das mais antigas que, certo dia, lhe entrou na loja uma senhora de aspecto muito humilde, roupas muito modestas. Queria um vestido para aliviar luto, um vestido bom, assim para o cinzento com toques de branco. Viu vários e, não se contentando, apontou para um lá ao fundo da montra. Era um Cerruti que, no final dos anos 70, custava duzentos contos. A empregada respirou fundo. O patrão jamais aceitaria que ela dissesse o preço do vestido como pretexto para não o ir buscar. Descalçou-se e lá foi, com calma. A cliente provou, gostou, pagou em dinheiro e foi à vida dela.

Numa loja aqui das redondezas, uma empregada disse a uma das minhas amigas que lhe pedia para ver um objecto:
- Mas olhe que é muito caro!
E ela com bonomia:
-Está bem, mas eu faço o sacrifício.
Claro, eu teria respondido de outra maneira.

E queixam-se. Queixam-se que vendem pouco. O meu avô dizia que quem ganha é sempre quem sabe mais.

3 comentários:

estela disse...

excelente, Ivone!

jrd disse...

Muito bom!
Passe a especulação, mas a senhora de aspecto muito humilde que comprou o "Cerruti" em cash, não usaria pulseira?
Refiro-me obviamente à 'electrónica' e não a uma das que são expostas nos manequins...

Ivone Costa disse...

Não, caro jrd, não usava. Como sabe as mulheres são curiosas e quiseram saber quem era. A senhora em questão comprava o vestido para ir assistir à entrega do diploma ao filho que acabara o curso. Queria estar bonita na cerimónia. O vestido ficava-lhe muito bem, pelo que me contaram, porque ela estava magríssima. Provavelmente, porque em vez de almoçar e jantar, sonhava com o filho a receber o diploma.
Subtilezas femininas, jrd, um mundo difícil.

Ivone