21 março, 2010

ANTÓNIO FERREIRA - DEUS NÃO QUIS





Fui há dias ao cinema ver este filme, tendo antes sido exibida esta curta-metragem.
Somos levados até uma aldeia portuguesa dias antes de um grupo de jovens partir para a guerra. Há uma festa de despedida no salão da aldeia. Um dos rapazes tem uma namorada e vemos troca de afectos entre si. Vai para a guerra. Escrevem cartas um ao outro. Uma das cartas acaba por se diferente e percebemos isso através da expressão dele ao escrevê-la e dela ao recebê-la. Porém, só quando ele regressa entendemos o que se passa: está paraplégico. Ele, sentindo-se humilhado, ao regressar à aldeia rejeita o reencontro com a namorada e esta, em total desespero, acaba por se render. Nunca mais voltam a encontrar-se. O filme termina, já com ele muito mais velho, sentado na sua cadeira de rodas, vendo num computador fotografias do tempo da guerra.
O filme não tem diálogos, tendo sempre a acompanhá-lo a canção popular "Laurindinha". Como se fosse um longo clip de 15 minutos da canção. A história é simples, a canção é simples, o tempo, comparado com o de um filme normal, bastante reduzido. Trata-se, no entanto, de um objecto artístico de grande qualidade.
Ora, a simplicidade dos conceitos e do conteúdo, contrastatando com o elemento "plástico" ou sensível da obra de arte é um dos aspectos mais importantes de qualquer obra.
Pensemos nos "Maias". Como explicar a obra a quem nunca a leu? Meia dúzia de linhas: Lisboa do século XIX, um rapaz e uma rapariga que se apaixonam, vindo depois a descobrir que são irmãos. Em suma, nos "Maias" temos um incesto. E na "Madame Bovary"? Uma mulher casada com um bom mas humilde médico de aldeia e que entra em desgraça a partir do momento em que vê uma janela aberta que a faz sonhar com um mundo completamente diferente. E o "Guerra e Paz"? E o "D. Quixote"? E os "Irmãos Karamazov"?
E o que se passa com os romances passa-se com os filmes. Basta meio minuto para explicar um filme a quem não o viu. Mas mesmo que se explique bem o filme (um crítico de cinema) a quem não o viu, com longas descrições e profundas análises, quem lê ou ouve a explicação, embora desenvolva um conjunto de ideias e conceitos a respeito do filme, continua a não saber o "que é" o filme. Pode até mesmo saber de que tipo de objecto se trata mas permance numa total ignorância "estética" a seu respeito. E não é inocentemente que uso aqui o "estético". Do grego "sensibilidade" ou "sentidos", o elemento estético é a verdadeira essência da obra de arte, não o seu conteúdo, o elemento conceptual ou ideológico.
Vejamos a seguinte pintura de Vermeer:

Uma mulher sentada que recebe uma carta trazida por uma criada. Há mais algum conteúdo para além desse? Podemos, é verdade, descrever o ambiente, a roupa da mulher, os objectos de um quotidiano holandês, a luz. Mas descrever tudo isso continua muito longe do impacto estético da obra.
Também podemos descrever uma música a alguém que nunca a ouviu, como sendo lenta ou rápida, alegre ou triste, multi ou mono instrumental, etc. Quantas vezes leio os livrinhos que acompanham os cd's nas caixas em busca de referências a respeito da música "oculta" no objecto físico? A época do compositor, a escola ou tradição em que se insere, as motivações por detrás da obra, os elementos biográficos, as influências, etc. Depois, começo a ouvir e embora possa encontrar uma conexão entre o plano conceptual e o plano estético, há sempre um hiato entre ambos que, podendo ser a posteriori esbatido pelo contacto com a obra, a priori será sempre intransponível.
Eu comecei com uma curta-metragem e não foi por acaso. Uma curta-metragem é um modo muito interessante, subtil e difícil de fazer cinema. Porque ao contar em 15 minutos o que, habitualmente se conta em hora e meia ou duas horas, existe uma concentração de meios que torna ainda mais complexa a relação entre os planos conceptual e estético. Digamos que a distância entre o resumo do conteúdo e o conteúdo propriamente dito é menor do que num filme normal. Se o quisermos, poderemos, depois de vermos um filme de normal duração, aumentar o nível da sua descrição. Na curta-metragem, pelo contrário, o resumo praticamente coincide com o que se manifesta no filme. Neste sentido, a descrição do conteúdo será sempre mais pobre e limitada. Aliás, foi o que fiz no inícico deste texto e, de facto, não há mais nada para dizer a não ser o que já disse.
Ora, é essa limitação que terá de ser compensada com elementos de natureza estética que justifiquem a sua existência. Neste sentido, a curta-metragem está para o filme de longa duração como o conto está para o romance. Narrativa limitada, poucas personagens, unidade espacial e temporal. Num filme, como num romance, existem múltiplos elementos que dilatam os seus conteúdos, havendo por isso, uma dispersão. É por isso que, perante um romance ou um filme uma multiplicidade de pessoas poderá apreciar uma multiplicidade de elementos. Nas "Viagens na Minha Terra" comecei por preferir a parte da ficção. Anos mais tarde, passei a preferir a parte ideológica do texto. E o mesmo se passa com um filme. Há quem prefira, perante um mesmo filme, a parte da acção, há quem prefira os diálogos, ou a música, ou a fotografia, ou as paisagens ou os actores.

Na curta-metragem não há essa possibilidade. A curta-metragem é, simplesmente, aquilo. Neste sentido a curta-metragem em questão é de grande qualidade apesar da simplicidade do argumento. Belas fotografias que dão vontade de parar o filme para ficarmos a olhar para elas, a relação perfeita da música com o filme como se aquela adquirisse o papel de um coro na tragédia grega, uma representação dramática que dispensa os diálogos, remetendo a narrativa para a pureza do cinema mudo.
Um bom filme que vale a pena ver.

4 comentários:

bons temposhein disse...

Um Grande Poste, grande porque -se for o caso- Deus quis.
Muito bom.

Alice N. disse...

Excelente! Por melhor que seja o discurso, o efeito estético de uma obra não se explica, quando muito é sugerido. Sem dúvida, é preciso viver a obra.

Rita TSBGC disse...

As curtas estão para o cinema assim como os contos estão para os romances.
A metaforicidade é plena, a narrativa é secundária, o efeito aprimora-se!
Quando reduz a Mme Bovary, ou os Maias, é tão crú como descrever uma pintura através das nomeação do número de figuras presentes e qual o seu género, falta o "re-dressing the cannon", aquilo que individualiza o autor!
Bom, mas as curtas em Portugal também são o lugar do experimentalismo, uma vez que o apoio para as longas se resume à pandilha dos Moribundos já sem melancolia mas com demasiadas sequelas de consumos excessivos...
ou seja, pode escrever-se um conto por se amar a circularidade do género ou apenas por não ter dinheiro para sobreviver até ao final do romance...
Texto fantástico que nos pôs a pensar!
Obrigado.

José Ricardo Costa disse...

Rita, obrigado eu!
JR