23 fevereiro, 2010

ONDE ESTÁ WALLY?


Uma amiga que vive há muitos anos em Atenas lembra-se, de vez em quando, de me enviar umas fotografias. Fotografias normais de sítios normais. Esta, porém, chamou-me a atenção. A primeira coisa que salta à vista é a sua absoluta normalidade: casas vulgares (feias), uma igreja, comércio, pessoas caminhando na rua, outras sentadas. Uma dia normal, numa normal cidade europeia.
Mas desviemos os olhos ligeiramente para cima, à direita. Num plano absolutamente secundário, passando despercebida e alheia ao movimento da cidade, está a velha Acrópole. O que eu considero fascinante nesta vulgar (desculpa, A.) fotografia é a troca de papéis.
O que nos põem à frente dos olhos sempre que nos querem fazer vender a Grécia? Mitos. A Acrópole, um anfiteatro, uma escultura. Como se a Grécia real não existisse. Quantas vezes já vimos imagens de Atenas como esta? Excepção feita, claro, no jornal, quando uma notícia o justifica, mas apenas para ilustrar o conteúdo da notícia.
Mas nesta fotografia é como se nós entrássemos numa máquina e fôssemos dar de repente connosco no centro de Atenas. Como se fôssemos atenienses. E tão atenienses que nem daríamos pela presença da Acrópole. Ora aqui está uma coisa bem perigosa.
Aquela Acrópole jamais deveria sair dos seus pensamentos. Compreendo que o hábito e a rotina tendem a banalizar, desmisitificar, dessacralizar as coisas. Um grego não pode acordar todas as manhãs a pensar na Acrópole. Mas torna-se perigoso, seja em Atenas, seja em Londres, Paris, Roma, Moscovo ou Lisboa, esquecer assim tanto as raízes que sustentam a nossa árvore. Se é grave para um grego, não o será menos para um europeu ou para qualquer ser humano que viva numa sociedade cujas raízes estão ali tão pequeninas e esquecidas por quem passa por aquela rua de Atenas num qualquer vulgar dia de semana.

3 comentários:

jrd disse...

Os gregos estão a ver-se "gregos" e não têm cabeça para pensar na Acrópole.

À margem: Aquela do PDR no seu comentário, deixou-me a pensar que devo estar com um ligeiro deficit de argúcia. Não entendi.
Abraço

jrd disse...

Estou esclarecido.
Reconheço que admiti que se tratava do ex-partido do ex-presidente, mas rapidamente me afastei...

JMV disse...

Ah, mas sabe tão bem esquecer a acrópole...Deve haver uma esplanada por perto...estar lá sentado simplesmente.Sem acrópole.
um abraço