21 fevereiro, 2010

O QUE MORRERÁ COMIGO QUANDO EU MORRER?


Num pequeníssimo texto (uma página) intitulado "A Testemunha", Jorge Luís Borges leva-nos até uma Inglaterra do século VII ou VIII, em fase de transição do paganismo para o cristianismo. Limita-se a descrever a morte de um homem simples e vulgar mas o último homem, numa época em que já se ouvem tocar os sinos cristãos pelas aldeias da velha Albion, a ter visto o rosto de Woden. Homem cuja morte fará com que morram também as últimas imagens de um mundo pagão. No preciso segundo em que se fecharem os seus dois olhos, esvair-se-á no vazio do tempo todo um mundo de séculos.
E lembra-nos que terá havido, algures na história, também um dia em que se fecharam os olhos da última pessoa a ter visto Cristo, tendo, com a sua morte, morrido igualmente a própria imagem de Cristo. Também a batalha de Junín ou o amor de Helena morreram com a morte de alguém, uma última pessoa a ter visto a batalha ou Helena.
E termina:"O que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou desagregável perderá o mundo?"
Boa pergunta, uma das mais pedagógicas mas difíceis perguntas que poderemos fazer a nós próprios.
Imagem retirada daqui

4 comentários:

jrd disse...

Se a morte não tiver 'intermitências'. Certamente que será a vida que irá morrer.

JMV disse...

Tenho pensado montes de vezes na questão que o seu texto coloca.
Para onde vão as coisas que desaparecem?Desaparecem?
um abraço

José Borges disse...

'and thene there was none'

'the lady vanishes'

'gone with the wind'

...

Mafalda disse...

Eu penso que o facto de uma pessoa morrer, não irá morrer grande coisa (sem querer parecer fria nem cruel). Mesmo que leve consigo um grande segredo de estado, as coisas mais tarde ou mais cedo mudam, nem que seja para pior! Mudam!
No entanto, se morressem, imaginemos, todos os portugueses, perder-se-ia todo um povo, toda uma cultura.
É a tal coisa, só se extingue uma raça quando não houver mais nenhum indivíduo que a represente.