14 fevereiro, 2010

O MONSTRO DAS BOLACHAS


O meu mais novo, um fedelho com 12 anos, apareceu-me com um pacote de bolachas 15 minutos antes do jantar. Eu disse que não podia comer. Birrou, alegando que estava cheio de fome. Eu ripostei, alegando que não iria comer nada até ao jantar. Continuou a birrar e fui obrigado a levantar a voz, último tiro e fim do duelo.
Sei que teria sido bem mais fácil ele comer as bolachas. Evitava-se uma birra infantil e a manifestação do meu despótico poder. Ficávamos os dois amigos, ele comprazendo-se com as bolachas e eu, serenamente, com o livro que estava a ler. E não teria sido drama nenhum comer menos ao jantar por falta de apetite.
A questão aqui não é comer mais ou comer menos mas a necessidade de refrear os impulsos e aprender a gerir frustrações. Não é uma questão de somenos importância. É por aqui que começa a distância entre um selvagem e um homem civilizado.

6 comentários:

jrd disse...

Poste bem conseguido, com a colaboração de Truffaut, mas sem a música de Vivaldi.
Abraço

addiragram disse...

Um dos nossos piores males das últimas décadas tem sido furtarmo-nos ao incómodo de frustrarmos.Julgámos assim que nos tornávamos nos pais bons "para sempre". Tornámo-nos em pais que ficaram à mercê dos filhos.
Uma dosezinha de frustração é indispensável.

Margarida disse...

Aplauso.
Além de que um dia ele lhe agradecerá.
Creia.

Miguel e Rita Clara disse...

A resiliência é uma qualidade dos não bárbaros, pouco aceite e pouco apregoada em momentos hedonistas.
Além do mais, esta qualidade, pode provocar graves abalos no sistema consumista e falsamente igualitário, ao limite resistir ao instinto imediato e saber esperar pode desencadear a falência de toda uma lógica produtiva baseada na satistifação em tempo real, desde os bens essenciais até à arte...
Costumo dizer aos meus filhos que uma ds provas dos legionários romanos consistia em fazê-los caminhar ao sol durante um longo período e no final do caminho teriam como último teste a maneira como bebiam água... Dependendo da dignidade mantida assim denunciariam a sua essência...
Não sei se é verdade mas apraz-me a ideia!!!
A fustração dos filhos tem consequências sonoras imediatas mas terá estridentes recompensas no futuro !!! ( assim espero)

Anónimo disse...

Da próxima vez, possivelmente, irá comer as bolachas às escondidas... Foi-lhe dito, não em imposição, mas em informação, porque não deveria de comer as bolachas próximo da hora do jantar? Apontando as suas razões, haveria uma negociação, uma só bolacha não faria diferença nenhuma e, os 15 minutos tinham passado.
Mas,seguramente, a imposição poderá contribuir para ocultação do que não é permitido.

República dos Bananas disse...

Sem discordar, também não sei se concordo completamente.
É óbvio que cada miúdo é como é, é também óbvio que a idade do meu (17 anos) não é comparável, mas não raras vezes fui confrontado com situações "de bolachas" semelhantes desde a mais tenra infância e não posso dizer que recorrer ao extremo da proibição fosse uma constante, embora muitas vezes recorresse à lógica e ao livre arbítrio; A lógica é incontestável...para quê comer bolachas, se estamos quase a ir jantar e "se tens fome realmente, come uma peça de fruta (neste caso particular)" e na livre escolha que sempre lhe permiti, não posso dizer que sinta que me sai mal. É um facto que por vezes "comeu bolachas", quanto mais não fosse, "uma bolacha" possivelmente para demonstrar alguma dose de independência...que sei eu? mas no computo geral, raríssimas vezes ficámos em extremos opostos da barricada.