25 fevereiro, 2010

O CORAÇÃO DAS TREVAS

Laboram em grande ilusão alguns espíritos. Acreditam uns que a fé move montanhas, outros que o amor vence tudo. A fé oscila e balança, de si mesma duvida e descrê; o amor perde-se, de si mesmo se esquece e morre. Imperecível só o ódio. Só o ódio atravessa gerações, inscreve-se no ADN como um ferrete genético.

O Tenente-Coronel Bill Kilgore aspirava, extasiado, o cheiro do napalm sobre o delta do Mekong. Pobre ingénuo. Mas tinha desculpa, vinha da América, uma civilização não amadurecida, não podia saber saber o que são sons e cheiros que levam da Ordem ao Caos e do Caos ao Nada.

O ódio tem o cheiro do bafo dos dragões míticos, o cheiro das roupas putrefactas das Erínias debruçadas sobre os corpos mutilados, o cheiro do sangue seco num cadáver abandonado. O ódio tem o cheiro pestilento das serpentes nos cabelos de uma Górgona.

Pobre Tenente-Coronel Bill Kilgore. A Walkürenritt é uma canção para adormecer meninos comparada com o som do ódio. O ódio soa ao dobre de finados, o ódio tem o som dos passos implacáveis de Némesis, o ódio rufa como um tambor numa cidade invadida, destruídas as casas, mortos os homens, feitas escravas as mulheres. O ódio não tem voz. Sai-lhe das entranhas um ronco sulfuroso e frio.

Se, como nos filmes para adolescentes, o Mundo acabar e apenas restarem alguns sobreviventes, esfarrapados, em busca de umas raízes que os mantenham vivos, só o ódio os poderá ajudar. Só o ódio os poderá levar a refazer os escombros e a regressar à Civilização e à Justiça.

A fé e o amor são um luxo de gente desocupada.

5 comentários:

Miguel e Rita Clara disse...

Reli o texto na procura de sinais claros de ironia.
A leitura tem coisas destas, inferimos a personalidade do, neste caso da escritora por trás da pena, ou melhor, da tecla...
As Paixões são tudo o que resta, na laboriosa desocupação.
Depois penso que todas as construcções erguidas por ódio ou pelo seu bastardo, o medo, se erguem nas paisagens humanas há século: fortes, muros, fossos, muralhas.
No meu espírito surge o Taj-mahal, construído por amor, surge como redenção, fixo-o e capturo-o para dentro de mim!
A fé não oscila, ela até conseguiu deter a terra e condenar Galileu!
E o Amor não se perde, pelo contrário encontra-se, pode é tomar formas diferentes, mas não se perde, metamorfoseia-se!!

jrd disse...

Só o ódio. Mas o dos explorados e oprimidos,o ódio ancestral dos condenados da terra.

graça martins disse...

Caramba Ivone!
Que será então dos poetas? Dos músicos? Dos que vos escrevem as referências que transcrevem? Os que contam a história?...
Um abraço,
graça

Ivone Costa disse...

Caros Miguel e Rita Clara, não encontraram sinais de ironia porque els não estão lá. Obrigada pelos vossos comentários sempre tão atentos e delicados .

jrd, sim o ódio. O ódio veemente, como veemente deve ser qualquer sentimento que se preze.

Minha cara Graça, o primeiro grande poema da civilização ocidental, A Ilíada, começa assim "Canta-me, ó Musa, a cólera funesta de Aquiles ...", é o poema da guerra de Tróia, da cólera de Aquiles, da morte dos heróis. Há mais sangue nas páginas da Ilíada do que no depósito de um hospital moderno.
Os poetas? Os poetas, como as pessoas, há-os de todo as as formas e feitios. Há-do do tipo "belo-bonito-o-amor-a-bondade-as-flores-as-cores-pastel".Há-os do tipo "mau-terrível-trágico-a-maldade-o-azul-plúmbeo."
A história da estética ocidental é uma histórias de infelicidades e de tragédias.
Não fosse o ódio e o que dele pode decorrer, os poetas, os músicos e os pintores não teriam produzido metade do que produziram.
Sem os monstros que dormem no sono da razão, muitos museus teriam as paredes quse vazias.
O amor pode ser tudo e de tudo ser capaz. É confortável, é bom para estas noites de Inverno.
Mas o ódio é mais resilente à entropia. Além disso, as potencialidades estéticas do ódio são muito maiores.

Um abraço

Ivone

marteodora disse...

Ivone,
é impossível ficar indiferente diante da força deste texto.
Das duas uma, ou se ama, ou se odeia!
No meu caso, sem que concorde com tudo o que diz, e pese embora o meu peuqeno cérebro ainda esteja meio anestesiado depois da leitura, amo!