21 fevereiro, 2010

A MALTA DAS NAUS

Ontem, ao ler o Público, a crónica de Francisco Teixeira da Mota fez-me sorrir, contava umas curiosas e interessantes histórias de tribunal. A que mais me deliciou conta-se uma penada: um emigrante, entretanto falecido, casou em 1985 na Venezuela com Joana de quem houve geração. Regressado a Portugal, em 1984 casa, catolicamente, com Fernanda. Vem o referido a morrer em Novembro de 1996, quando passara já o prazo para anular o segundo casamento, pelo que vêm concorrer à herança as cônjuges sobrevivas e o filho havido de um dos casamentos. O juiz que titulava o processo de inventário suspendeu-o porquanto entendeu que a decisão sobre qual das duas viúvas seria a herdeira só poderia ser tomada após a anulação de um dos casamentos. Fernanda, descontente com a decisão, recorre para a Relação do Porto. O excerto que transcrevo, retirado da crónica de FTM, é magnífico. (Aliás, em tempos, eu levava para as minhas aulas pedaços de acórdãos para que os meus alunos vissem o que era a clareza sintáctica de uma frase, a frase longa onde não falha uma concordância verbal, a propriedade da linguagem. Este acórdão tem, como é óbvio, tudo isso mas tem muito mais: tem um saber de experiência feito, um aceitar que as coisas são como são e não adianta aborrecermo-nos com as coisas porque as coisas não se aborrecem nada com isso. Na Relação do Porto, os juízes desembargadores Manuel Teixeira Ribeiro, Fernando Pinto de Almeida e Trajano Teles de Menezes e Melo determinaram que a partilha fosse feita entre as duas viúvas e o filho e assim mandaram lavrar no acórdão: “ não é com frequência que, efectivamente, se admitem dois cônjuges sobrevivos a concorrer à mesma herança. Mas a diáspora, ou a vocação universalista do povo português – propensa à descoberta de noivas e viúvas pelos “quatro cantos do Mundo”- poderá, certamente, explicar melhor que isto aconteça”.
Adorei. Tirei os óculos, levantei os olhos dos jornal e sorri. Lembrei-me que o Professor Ivo Castro, eminente linguista e filólogo da Faculdade de Letras de Lisboa, proferiu, em tempos, uma pequena conferência na minha escola. Ao falar do pidgin e dos diversos crioulos, disse : “Porque é certo e sabido: onde os portugueses chegavam nove meses depois havia bebés.”
António Gedeão não saberia, penso eu, as subtilezas do Código Civil nem algumas minudências filológicas, mas sabia muitíssimo bem as leis da química e da física. Por isso escreveu no seu Poema da malta das naus:

(…)
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

(in Teatro do Mundo, 1958)

4 comentários:

disse...

Há uma gralha no teu post: onde se lê "Ivo Cruz" deveria ler-se obviamente "Ivo Castro".

Ivone Costa disse...

Deus te pague,Zé. Obviamente.

Ivone

estela disse...

querida Ivone,
já aqui há uns tempos alguém (cujo nome me escapa)havia referido o prazer de ler-vos aos dois e do pequeno jogo de adivinhação, a ver quem escreveu o post que se está a ler. creio até que, na altura, confirmei que também o fazia.

com os tempos tais pormenores deixaram de ocupar espaço e já não penso nisso.

Ora aconteceu-me com este post estar a ler sem pensar de quem é até chegar às palavras "conta-se de uma penada". Levantei o sobrolho. Chegada ao fim do texto dei comigo a sorrir, porque já a distingo à terceira linha ;)

claro que tudo isto não significa nada além de que gosto dessas coisas que se contam de uma penada.

um abraço
estela

Ivone Costa disse...

Estela, obrigada. No fundo, o que a menina está a querer dizer é que me reconheceu o estilo, enfim o estilozito. E é bom saber que temos um bocadinho disso.

Ivone