20 fevereiro, 2010

CORPO E ALMA



Esta fotografia do ateliê do João Alfaro levou-me a pensar na distinção entre a escultura e a pintura. Na escultura, seja de madeira, pedra ou aço, há uma presença forte da matéria, a qual, de certo modo, acaba ainda por se sobrepor à forma. Eu olho para uma escultura e, por muito depurada que ela seja, não consigo abstrair-me do seu suporte material. Já na pintura, iremos encontrar uma desmaterialização da obra. A madeira, a pedra, o aço dão lugar às cores, o peso da matéria dá lugar à luz da forma.
É por isso que eu gosto muito do que é sugerido nesta fotografia. Num primeiro plano, encontramos uma amálgama caótica de materiais: pincéis, tubos, panos, diluentes e sei lá mais o quê, que não sou pintor. A vida material na sua plenitude, feita de impurezas, imperfeições, despojos. Mas qual irá ser o seu resultado? O que se pode vislumbrar ao fundo: uma realidade desmaterializada, etérea, depurada, evanescente sobre uma tela, feita de cores e de luz.
Eu vejo nesta relação entre a rudeza dos materiais e a pureza das formas, o mesmo tipo de relação que existe entre o corpo e a alma. O que é um corpo? Ou dito de outra maneira: o que é um corpo sem alma? Uma matéria bruta, sem vida, sem dinâmica. Um corpo sem alma não tem qualquer razão de existir, do mesmo modo que as tintas só existem para a pintura. De que vale a bisnaga de óleo ou acrílico sem o produto final? Também o corpo existe para uma alma, como suporte da alma, o fim do corpo é a alma. E, tal como no ateliê do João encontramos um amontoado caótico de materiais que se exploram para dar lugar à obra de arte, também o corpo é feito de um conjunto de ossos, carne, tendões, vísceras, músculos, órgãos, sangue que, em si mesmos, não têm qualquer razão de existir mas apenas para dar lugar a uma obra de arte sem a qual a existência humana perde toda o sentido. E quanto mais rica for a obra final mais dignificados ficarão os materais.
Um bom pintor precisa de bons pincéis e um bom músico de um bom piano. Um piano sem música não serve de nada assim como os pincéis sem a pintura. Mas quem é artista sabe que os materiais, não sendo fins em si mesmos, são uma peça fundamental da obra de arte, parte integrante do seu trabalho, sem os quais não pode viver.

2 comentários:

Alice N. disse...

Brilhante. Um texto com alma.

joao alfaro disse...

Pois é, a alma é a razão da força, do sonho e, também, do desejo. Esta fotografia que apenas mostra um pequeno vislumbre do meu espaço de trabalho é a essência do que quero: pintar (com alma).

Obrigado pelas palavras tão felizes sobre uma fotografia minha.

João Alfaro.