06 fevereiro, 2010

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL

Este ano, tenho uma turma de 10º ano de Línguas e Humanidades à qual, para além de Português, lecciono Literatura Portuguesa. Significa isto que aquelas criaturinhas me ouvem falar durante dez horas por semana. Mas significa, também, uma outra coisa: o programa é exigentíssimo, vai da lírica medieval até ontem à tarde: para além de um extenso programa e de um exame nacional no próximo ano, os alunos terão de, ao longo dos dois anos, desenvolver um projecto individual de leitura no qual trabalharão sobre obras por eles escolhidas de uma muito extensa e um pouco pretensiosa lista, tendo em com os imberbes rostos que tenho na frente. Está tudo a correr muito bem. Não são alunos brilhantes, são alunos bons mas, mais importante do que isso, estão a melhorar de dia para dia. Apetecia-me, agora, fazer umas considerações sobre algumas questões, mas como sou objectora de consciência no que respeita a terminologia e conceitos de eduquês que teria inevitavelmente de utilizar, passo aos factos.
Uma destas noites, recebi um mail de uma aluna. Pensando que lá vinham dúvidas e questões, fui ler. Dizia-me: "Stôra, sabia que o Saramago dedica todos os livros à Pilar? E sabia que no último livro ele diz "À Pilar, como se dissesse água."? O que é que é que eu tenho de fazer para que um homem me escreva isto num livro?"
Ora abóbora, pensei. Pensava eu que iria falar sobre técnicas narrativas e afins e sai-me uma espécie de consultório sentimental em versão erudita.
Bem, lá comecei a resposta. Falei sobre o amor, sobre o "outro" junto do criador, o espaço físico no acto de escrita, patati-patatá, a inspiração, patati-patatá, o mundo material em que o escritor vive e para o qual poderá não ter tempo nem paciência, patati-patatá, o amor, patati-patatá. Depois, olhei de novo para a pergunta da miúda: "O que é que eu tenho de fazer para que um homem me escreva isto num livro? Apaguei o longo texto que tinha acabado de escrever e respondi apenas: "Convence-o."

4 comentários:

José Trincão Marques disse...

Há uma história curiosa relacionada com as dedicatórias dos livros de José Saramago.
Os seus livros publicados até meados da década de oitenta são dedicados "a Isabel". Neste lote se incluem livros como o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis (talvez os seus dois melhores livros).
Todas as edições posteriores dos seus livros, incluindo as novas edições de livros anteriores, aparecem com a dedicatória "a Pilar".
O Ano da Morte de Ricardo Reis que tenho, com edição de 1984, tem a seguinte dedicatória: "À Isabel, outro livro, o mesmo sinal".
Quem compre uma edição mais recente deste livro encontrará uma dedicatória diferente.

Ivone Costa disse...

Sic transit gloria mundi, ilustre Trincão Marques.

Ivone

JCM disse...

O que ela deve fazer, Ivone, é nada. Se a graça recair sobre ela, terá isso, caso contrário...

Ivone Costa disse...

Pois é, meu caro, mas nem em todas chove graça tanta. Assim sendo ...

Ivone