17 fevereiro, 2010

AVISO À NAVEGAÇÃO

Este post é objectivamente dirigido a uma pessoa que, muito provavelmente, não lê blogues. No entanto, volta daqui, volta dali pode ser que lá chegue.
Na passada segunda-feira, o meu marido encontrou no átrio do Hospital de Torres Novas um ex-aluno dele. Pelas referências que me deu, não faço a mínima ideia de quem seja. Porém, o tal ex-aluno conhece-me, de vista, porquanto nunca fomos formalmente apresentados. Como não se viam há algum tempo, devem ter dado a habitual palmadinha nas costas que os homens dão quando se encontram e fizeram um rápido balanço dos últimos anos. A pessoa em questão ficou a saber que o meu marido casara de novo e quis saber quem era a ditosa noiva. Ao saber, como qualquer pessoa que tivesse engolido, ainda que a custo, umas colherezitas de chá em criança, teria dito as fórmulas usadas em tais circunstâncias: “Felicidades, pá! Que tudo corra bem!” Pois não foi o caso. Começou a dizer, em jeito de aviso, que eu tinha um mau feitio dos diabos, que era terrível, que era uma fera, terminando com um preocupado: “Eh, pá, tu toma cuidado!” O Zé Ricardo que, como é hábito, não ouviu metade da conversa e esqueceu metade da metade do que ouviu lá o descansou, dizendo que estava tudo sob controlo.
Vejamos, então. Toda a gente sabe que eu tenho mau feitio. E que assino por baixo. Eu não sou como as mulheres de Atenas do Chico Buarque, as tais que “não têm gosto ou vontade/nem defeito nem qualidade”. De tudo isso tenho em quantidade e veemência. Excepto as qualidades, claro, que são poucas, muito poucas, mas que me têm chegado para sobreviver e para ajudar quem delas tenha precisado. Nunca fiz mal a ninguém intencionalmente. Mas, a quem me fez mal, sempre procurei, fria e calmamente, fazer muito pior. Sou praticamente incapaz de perdoar. Sou vingativa e cruel. Sou arrogante e impetuosa. Sou intolerante, sou elitista, sou caprichosa, sou fútil. Sou muito rancorosa, sou ciumenta, sou obsessiva, casmurra, irascível. Há em mim alguns laivos de sadismo e, no fundo, acho-me sempre a melhor da minha rua.
Qualquer pessoa pode dizer estas coisas, e outras do género, a meu respeito. Aliás, apraz-me este meu mau feitio como me apraz ter uma excelente advogada que passará à acção, caso os comentários a meu respeito deixem de ser a emissão de uma livre opinião ou juízo de valor e passem à difamação ou à invenção de factos. Recado dado.

Pois. Penso, algumas vezes, neste post.

Adenda: factor curioso, no fundo é o efeito manteiga Président/ versus bolo-rei – eu trato todos os alunos, mesmo os dos cursos nocturnos, por tu. Eles gostam, gostam daquele petit rien de proximidade. (Excepção feita, como é compreensível, aos alunos que, dantes, tinham 50 anos e eu 30.) Quando eu deixo de tratar um aluno por tu, algo de grave se passou. E eles sentem.
Ficam logo a saber que o caldo se entornou e, como eu explico nas primeiras aulas, caldo entornado é caldo perdido para sempre.
Quando deixam de ser meus alunos, o fórmula de tratamento muda. Acaba o tu e a distância instala-se.
O Zé Ricardo, in contrario, trata os alunos por você e, quando deixam de ser alunos dele, é tudo tu-cá tu-lá como se tivessem andado juntos na escola.
Naturezas.

8 comentários:

Miguel e Rita Clara disse...

Decerto vai estranhar o comentário mas arrisco...
Nada sei acerca do facto que narra, nada me interessa, ou melhor apenas o desenho grosseiro de um sufoco de gente que nada sabendo julga poder falar apenas por reconhecer vagamente.
Há poucos dias neste mesmo blogue lembraram as três irmãs de Tchécov, como sou estrangeira ( ou apátrida) recomendo-lhe a releitura.

SaraC disse...

"no fundo, acho-me sempre a melhor da minha rua". Delicioso! É um prazer ler os seus posts.
SaraC

Diana disse...

Independentemente de todos os "sou" (ou apesar de?), a verdade é que a Professora Ivone (agora...colega? estranha sensação...) foi A professora. E isso só consegue perceber quem um dia teve o privilégio de ser tratado por tu.
Um beijinho (sem distância, se puder ser)
Diana Amarante

Ivone Costa disse...

E eu aceito a sugestão, Miguel e Rita Clara. Obrigada.

SaraC, obrigada pelo seu comentário.

Diana, não mudaste nada, continuas muito exagerada. Um beijinho bem próximo.

Ivone

Margarida disse...

(Cof.cof...) Hmmm..., já li isto uma data de vezes...; tenho de ler mais...
Apetece-me dizer qulquer coisa. Mas nem sei o quê!
Ai...
Bem..., talvez... de que signo é!?

Reinaldo Amarante disse...

Credo Ivone! Tantos defeitos não cabem numa só pessoa!
Teimosa és. Aquela da não publicação dos teus murmúrios está-me atravessada...
Respeito essa de te assumires monárquica. Consigo ver-te marqueza , condessa, com o povo a reverenciar-te, mas não consigo imaginar-te a ir ao beija-mão a Sua Majestade D. Duarte.

Ivone Costa disse...

Escorpião, Margarida, Escorpião.

Ainda cabem mitos outros que não referi, Reinaldo.

Ivone

C.M. disse...

Fiquei sem fôlego perante uma mulher com tantos predicados!

(adorei o estilo!).