28 fevereiro, 2010

AUGUSTO ALVES DA SILVA


O erotismo é um território que fica algures entre a natureza e a cultura. Uma pessoa nua nada tem de erótico. Uma pessoa vestida também não. Dificilmente se imagina coisa menos erótica do que uma praia de nudismo. Também uma pessoa formalmente vestida nada terá de erótico. O que é erótico, sim, é o jogo entre o que se esconde e o que se revela. Entre o que se esconde, mostrando ou o que se revela, escondendo. Neste sentido, o erotismo funciona um pouco como o chiaroscuro na pintura, um jogo de luz e de sombras que se sobrepõem num mesmo plano ontológico.
A experiência erótica, porém, não deve ser entendida num imutável e intemporal inteligível platónico. A experiência erótica é também uma experiência histórica e culturalmente condicionada. O que era erótico no tempo dos nossos avós poderá já não sê-lo para nós. O que é erótico para um africano ou irianiano pode ser diferente do que será para um europeu. O corpo é alvo de múltiplas representações e o sentido do erótico fluturá naturalmente ao sabor daquelas.
A fotografia que agora aqui trago é marcada por um inteligentíssimo erotismo. Uma mulher em fato de banho nada tem de erótico. Como disse no início, nua também não terá. O que haverá então de magistralmente erótico nesta foto? O que há aqui erótico num tempo em que devido a uma exposição pública do corpo a nudez perdeu todos os mistérios é o movimento que permite, não revelar um corpo (o clássico strip-tease ou simplesmente uma mulher que se despe) mas a dupla revelação da marca do fato de banho na pele: por um lado, a parte mais clara da pele por estar tapada pelo fato de banho, por outro, a marca do elástico do fato de banho gravada na pele.
O fato de banho é um elemento cultural que cobre o corpo (natural) desta mulher. Mas numa época em que se assiste a uma certa "africanização" do corpo, de uma desocultação pública do corpo, imaginar a nudez que resulta do movimento deste fato de banho que se abre também pouco terá de erótico.
O que é aqui, na verdade, eroticamente eficaz, é a sugestão de um elemento cultural (o fato de banho) imaterialmente conservado, como simples rasto cravado no elemento natural. O fato de banho é o fato de banho, o corpo é o corpo. O que será, porém, um rasto de fato de banho num corpo? Já não é o fato de banho mas a sua reminiscência. Mas também não é um corpo. Será antes o que nos faz lembrar que aquele corpo esteve oculto mas que, agora, estando desocultado, continua a sugerir a sua ocultação, criando um sublime efeito de preciosa e inacessível intimidade.
Numa época em que o corpo perdeu a sua intimidade e mistério, nada melhor do que um subtil rasto de fato de banho para nos levar a confundir natureza e cultura, neste caso, sobrepostos num mesmo plano. Como o chiaroscuro na pintura.

2 comentários:

JMV disse...

Por acaso não gosto particularmente da imagem,mas o seu texto é acertadíssimo.Em cheio.
um abraço

Henrique disse...

L'érotisme, c'est de donner au corps les prestiges de l'esprit.
Georges Perros
(Publicada em cortenaaldeia)