25 fevereiro, 2010

AS MÃOS




A National Gallery escocesa (Edimburgo) irá juntar estes três quadros do jovem Vermeer. O que me traz agora aqui não é a enorme diferença entre estes quadros e os posteriores do génio holandês. São as mãos.
Em todos eles têm as mãos um papel importante. Eu divido-os em duas partes. Junto os dois primeiros, ficando o terceiro separado. Enquanto nos dois primeiros há uma mão ocupada, no terceiro já vemos uma mão entregue apenas a si própria.
No primeiro, uma mão que lava um pé, tendo por isso um valor funcional. No segundo, uma mão que afaga um seio. Não tem um valor funcional no sentido do primeiro mas, ainda assim, há neste movimento da mão um valor prático associada à sedução e ao prazer.
E no que diz respeito ao terceiro? Temos a célebre visita de Jesus a casa de Marta e Maria da qual eu já havia aqui falado a propósito de um quadro de Velasquez. Ora, nesta cena vemos uma mão vazia, sem pé para lavar ou seio para afagar mas, ao mesmo tempo, percebe-se que se trata de uma mão viva, em movimento, de uma mão expressiva.
Das três mãos que vemos nestes três quadros do jovem Vermeer, esta mão é, certamente, a mais ambiciosa e cujo movimento terá uma maior duração. Tudo o que é funcional e prático se esgota com o fim da função. Mais: tudo o que é funcional e prático se esgota nessa mesma função. A mão de Cristo, porém, a mão vazia enquanto extensão da sua palavra tem um poder que mais nenhuma outra mão ousará ter. Uma mão vazia é não apenas uma mão onde tudo cabe mas, sobretudo, uma mão sem fim. Fim, no sentido das duas primeiras mãos. No fundo, é o que distingue o Espírito Santo de um pombo correio ou de um pombo com que se faz uma canja. Enquanto os dois últimos têm uma finalidade específica e esgotada em si mesma, o primeiro, não se vendo, nem nada fazendo, limita-se a pairar sobre as águas. E, quando o espírito se move, qualquer coisa de grande e ameaçador pode estar para acontecer.

2 comentários:

Ana Paula Sena disse...

Belíssimos quadros! Obrigada por partilhá-los aqui connosco.

Gostei muito de ler a sua interpretação. Parece-me esplêndida a ideia (e o gesto) de uma mão sem fim...

JMV disse...

Sim...Excelente.
um abraço