20 janeiro, 2010

VIRI A DIIS RECENTES

Lucas Cranach, Adão e Eva

Num dos seus Essais, [Dos Canibais, I, 31] Montaigne faz uma defesa dos índios do Brasil, enaltecendo a sua inocência e pondo em causa uma suposta superioridade do homem europeu e civilizado. Entretanto, para reforçar a sua apologia recorre a uma belíssima frase de Séneca [Epistulae, XC,44]: Viri a diis recentes. A tradução, de Rui Bertrand Romão (tecnicamente correcta, segundo a minha consultora particular para questões latinas), é ainda mais bonita: "Homens vindos de fresco das mãos dos deuses".
Não é fácil encontrar uma frase tão bonita quanto esta: homens vindos de fresco das mãos dos deuses. Lembro-me bem de não me ter saído da cabeça durante muito tempo quando a li a primeira vez. E tão bonita quanto a frase é a ideia que lhe corresponde: a ideia de uma humanidade em estado de graça, pura, sem conflitos, sem incompatibilidades, partilhando os mesmos fins e valores.
Ideia tão bonita e tentadora que, por diversas vezes, se tentou criar uma sociedade de homens vindos de fresco das mãos dos deuses. As utopias, no fundo, são sociedades imaginadas a partir da ideia de uma humanidade vinda de fresco das mãos dos deuses.
A religião, habitualmente, é acusada de mistificações e de apagar a nossa lucidez. Nem sempre isso será verdade. Um exemplo? Qual será o símbolo mais eloquente de um homem vindo de fresco das mãos de Deus? Adão, pois claro. E quem é Adão? Aquele que é feito a partir do barro. Um barro sempre tão fresco, tão fresco, tão fresco que, à mínima chuvada, começa logo por se desfazer.
Um Adão de barro, vindo fresco da mão de Deus será a melhor prova de que a humanidade jamais estará preparada para enfrentar fortes e inesperadas chuvadas. Razão pela qual todas as utopias acabaram em distopias.

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