25 janeiro, 2010

O CÁRCERE


Que mais pode um homem temer do que este olhar ausente e vazio de S. Paulo na prisão, pintado por Rembrandt? A decrepitude da velhice está toda neste olhar.
S. Paulo foi muito mais do que um importante cristão. Ele é o próprio cristianismo, o inventor do cristianismo. Homem poderoso, culto, inteligente, activo, um infatigável lutador em nome de uma boa-nova que iria transformar o mundo. Ora, é precisamente isso que torna o seu olhar ainda mais trágico. Mais do que "um" olhar, é o facto de ser "o" olhar desse homem.
Apesar de profundo e da presença dos enormes e sábios cadernos, este olhar está muito longe do olhar absorto e distraído de quem pensa. É antes o olhar de quem já não consegue pensar. Não é um olhar para dentro, não é um olhar para fora. É um olhar para lado nenhum, o olhar de uns olhos que já não olham.
Aqueles cadernos repletos de sapiência já nada fazem ali. Aquela espada é apenas uma pálida recordação de lutas que ficaram enterradas no passado. O próprio pé descalço é mesmo um sinal de que já não irá caminhar como fez durante anos. Está, aliás, bem mais próximo de descalçar o sapato que ainda usa do que voltar a calçar o que já descalçou. Numa prisão não se caminha. Numa prisão também já não há nada para olhar e para pensar.
Por muito que nos custe, a fase final da velhice é mesmo uma prisão em que se está descalço, sem mãos para lutar e olhos para olhar. E engana-se a si mesmo aquele que diz o contrário.

8 comentários:

Alice N. disse...

A velhice tem algo de profundamente trágico e triste, é verdade. Mas também podemos ver nela algo de positivo: ela está associada ao muito que se viveu (e, se bem vivido, ainda melhor), e o muito de bom que pudemos dar e receber ao longo da nossa existência. Ninguém deseja ser velho, mas só a velhice nos traz esta maravilhosa herança: todo o bem que demos e fizemos e tudo o que a vida nos retribuiu.

Nuno Filipe Vieira Gomes disse...

Vai preso quem não está adequado à sociedade por ter cometido faltas graves contra ela.

Os nossos velhos no Natal às vezes vão presos para o hospital, não por terem cometido faltas contra a sociedade, não por estarem doentes mas, por se encontrarem desajustados, desadaptados à sociedade.

É triste mas é a verdade.

Ega disse...

E não é precisamente na velhice que o homem constata a evidência da sua vida: que viveu toda a vida numa prisão?

José Trincão Marques disse...

O bem estar espiritual na velhice será tanto maior, quanto melhor qualidade teve e mais rica foi a «história» dessa vida.

Anónimo disse...

Contra a ciência geradora artificial de vidas longas e próperas!
Raras excepções.
Depressão e envelhecimento.
Doenças degenerativas de espíritos ansiando corpo para cumprir a dignidade.
A velhice não é o dócil retrato da Avó no alpendre, de óculos caídos no regaço, a velhice são horas a mais em noites começadas ao cair do sol.
Acho até que o Alzheimer é uma forma de rever a vida e reter o mais marcante, para que serve recordar o almoço de hoje se nos esquecermos do cheiro a canela da cozinha da nossa infância..
Em Clausura, porque o mundo também se fecha sobre os velhos, morrem longe, adoecem longe, existem longe.
Ninguém tem rugas, nem os velhos!!!

marteodora disse...

Este assunto remete-se para um livro do Philip Roth "Todo-o-mundo" através do qual entramos na pele de um velho homem e confrontamo-nos com todas as considerações intímas e nos diálogos que consigo próprio vai estabelecendo, sabendo-se na recta final desta viagem, tomando consciencia de que o próximo a morrer poderá ser ele, mas que acalenta, diariamente, a esperança de se manter vivo, de não se separar dos elos que ele próprio criou.
E eu acho isso mesmo, que a velhice (doce ou amarga)é tomar consciencia de que estamos a prazo e de que o tempo nos é precioso.
E se essa tomada de consciencia nos acontecer aos 30, 40 ou aos 50então ficamos amarrados cedo e viveremos, de facto, presos até ao final.

José Ricardo Costa disse...

E por falar em Philip Roth, o "Animal Moribundo" também anda por aí. Bom livro.
JR

JMV disse...

Entrou dentro da pintura.