18 janeiro, 2010

MIL IMAGENS



Depois de ter visto no museu Os Embaixadores, o quadro passou a fazer parte do meu pessoal museu imaginário. Desde então que por diversas vezes o tenho mostrado nas minhas aulas e sempre com uma enorme receptividade por parte dos alunos.
Hoje, referindo-se a ele, um aluno falou da "imagem" que eu lhes tinha mostrado há tempos na aula. Eu achei esta frase espantosa. Este aluno não viu um quadro, não viu uma pintura. Viu uma "imagem" que lhe mostrei através da Internet.
Se fizermos uma pesquisa no Google imagens, seja aquela qual for, é impressionante observar o modo como se misturam imagens completamente diferentes. Ver, na mesma página, uma pintura de Ticiano, um boneco, uma cantora pop e uma marca de detergente. Tudo imagens. No espaço amorfo da Internet todas as coisas perdem a sua identidade que lhes permite ter um estatuto próprio no mundo real para adquirirem uma identidade virtual que as coloca ao mesmo nível. Daí tudo se reduzir ao plano das imagens. Tudo o que aparece no monitor é uma imagem. No mundo real, um quadro é um quadro, um ser humano é um ser humano, um pacote de bolachas é um pacote de bolachas, um desenho animado é um desenho animado. São quatro níveis distintos de realidade sem quaisquer possibilidades de se confundirem. No mundo virtual, pelo contrário, existe apenas uma realidade reproduzida amorfamente.
Isto leva-me de novo ao conceito de aura, e respectiva perda, tal como é analisada por Walter Benjamin. Não ponho em causa o facto de os alunos gostarem desta "imagem". Mas onde eles vêem uma imagem, entre mil outras imagens, umas de que gostam, outras de que não gostam e outras às quais são indiferentes, e pelas quais vão passando com um rato na mão, eu vejo um quadro. Pintado por Hans Holbein no século XVI. Infelizmente para eles, não é a mesma coisa.

10 comentários:

Alice N. disse...

É de facto intrigante que se coloque a imagem de um detergente ao mesmo nível de um quadro (independentemente de apreciarmos ou não o seu valor estético). É verdade que a Internet, com todas as "imagens" confundidas, contribui muito para que os alunos (e não só) coloquem tudo ao mesmo nível, mas antes do Google Imagens talvez não fosse muito diferente. Muitos alunos não têm qualquer relação com a arte. Para muitos, falar de pintura ou escultura, por exemplo, representa algo tão distante, obscuro e abstracto como falar de galáxias perdidas por descobrir.

É certo que não podemos ver todos os quadros nem conhecer todos os museus, mas é importante que conheçamos alguns, para valorizarmos a arte e percebermos que ela se distingue, pela sua excelência, de outros registos. Levar os alunos aos museus é fundamental e eles costumam ficar muito impressionados. Nesta matéria, costumo recordar o caso do meu filho que, em nove anos de escolaridade, foi apenas a um pequeno museu local com a escola. Não culpo ninguém por isso, mas considero que não é normal, atendendo a que se fazem tantas e tantas visitas de estudo aos mais diversos locais. Ora, se alguns têm possibilidade de ir aos museus com os pais, muitos não, porque os próprios pais não foram sensibilizados para isso. Enquanto esta realidade não mudar, os museus continuarão vazios e os alunos olharão para os quadros como quem olha para o rótulo de uma embalagem qualquer, e o rato, esse, continuará a passar por entre as "imagens" com a indiferença com que olhamos para um produto descartável.

Anónimo disse...

O modelo de educação adoptado pelos "US of A" que "desmonta" o enquadramento cronologico, ou sequência de eventos históricos, apresentando ao estudante factos aleatórios não respeitando uma linha temporal. Na opinião de alguns, trata-se de uma alienação intencional com o objectivo de eliminar o sentimento de inferioridade dos americanos em relação ao resto do mundo por a sua história ser tão curta e em certa medida pobre.
Não discuto nem comparo, a relevancia de um Andy Warhol a um Van Gogh, mas independentemente de quaisquer globalizações e normalizações e novas ordens mundiais e... Concordo que o uso generalizado/banalizado das novas tecnologias, está a ter um efeito de perda de identidade dos povos. A sensibilidade necessária á interpretação da arte prenhe de mensagens escondidas e significados ocultos, está á beira de ficar reclusa de uma elite. E mesmo essa, em vias de extinção.

PS - Aposto que os putos curtiram a "imagem" por causa da caveira. Não?

JCM disse...

Meu caro, tudo se paga nesta vida. Se se dessacralizou a religião, por que razão não haveria de acontecer o mesmo à arte? Não são elas filhas do mesmo deus?

José Ricardo Costa disse...

Claro que a caveira tem uma sucesso enorme. Mas apreciam também a "imagem" no seu todo assim como o seu significado.
JR

Kamaroonis disse...

O "post" - perigoso neologismo globalizante - começa: "Depois de ter visto no museu Os Embaixadores [...]". Ora aqui está! Tudo depende de um contexto, não é? Visto no museu um quadro, é isso mesmo um quadro, uma pintura, um objecto físico; além disso, e precisamente por estar este e estarmos nós nesse momento contemplativo num museu, o primeiro ganha de imediato uma conotação "histórica" e cultural - mesmo que não a consigamos abarcar na altura em toda a sua dimensão - como algo que a sabedoria de antanho e/ou da nossa época reconhece como tendo suficiente importância para que figure com o devido relevo nesta forma de guardar e exaltar a memória e o que vai construindo a nossa Civilização que é o museu. A grande maioria das pessoas em Portugal não viu, nem vai ver, esta pintura na National Gallery; é igualmente verdade que um ainda maior número de pessoas não tem sequer esta "imagem" na cabeça.
O Google não é um museu, é apenas um funil, em última análise estúpido, entre quem "busca" e a amálgama de dados alojados na internet e, no entanto, bastas vezes, o contexto está apenas à distância de um "click" e não, num museu que se encontra num local demasiado distante da realidade de 90% das pessoas que usam a internet; nesse sentido o Google é algo mais que um horrível papão destruidor da identidade de objectos, é uma grande oportunidade de enriquecimento cultural.
Quem ensina é obviamente superior a um "motor de busca", mesmo um que seja origem de uma globalizante fortuna multi-bilionária, e em consequência infinitamente mais responsável. Ninguém nasce ensinado, a forma que a nossa sociedade elegeu para ensinar é, em primeiro lugar, a escola. Independentemente dos recursos disponíveis e dos eventuais buracos (negros?) dos programas didácticos, os professores têm hoje mais um meio que lhes permite pegar em "imagens" mesmo que descontextualizadas e transformá-las em conhecimentos e, assim, não apenas devolver-lhes a identidade mas muito mais que isso aumentar o seu (re)conhecimento.
Compreendo a fonte da perplexidade, não entendo que seja um espelho da degradação civilizacional e não aceito que isto seja em si um problema, é apenas um sintoma do que sempre foi - a maioria das pessoas não vê importância na arte e a sua preservação sempre foi promovida por elites, isto não é um problema dos "nossos tempos".
Pode não ser "a mesma" coisa para todos, até para a maioria, mas para alguns, mais do que no passado, pode tornar-se de facto na mesma coisa ou, eventualmente (ainda podemos sonhar?) até mais.
Peço desculpa, alonguei-me... Normalmente sou caladinho. :)

Um grande abraço para si.

José Ricardo Costa disse...

Caro Kamaroonis,

Tem toda a razão no que diz. E até lhe digo mais: nem imagina o quanto eu devo ao Google e ao Google imagens. Sei hoje muito mais, tenho conhecido mais, tenho muito mais informação do que teria, sem a Internet. Digo-lhe mesmo que o tempo que muitos passam a ver televisão, eu passo-o na Internet. O problema não é esse. É o facto de ter deixado de haver uma hierarquia relativamente aos "objectos" que constituem o mundo. Neste sentido, a Internet é uma espécie de caldo que junta realidades completamente distintas. Não falei em decadência, até porque muitos dos garotos que hoje não vêem os Embaixadores como um quadro são filhos de pessoas que nunca o viram sequer. Quis apenas realçar o impacto negativo que um mau uso ( e abuso) da tecnologia pode ter.
Grando abraço também para si,
JR

addiragram disse...

Se por um lado o percebo ( julgo...) pergunto-me se não correremos o risco de estar a ficar velhos, i.e,começarmos a olhar os actuais jovens como os nossos avós nos olharam-nunca poderíamos entender a linguagem deles e estávamos mesmo a adulterá-la. O seu post fez-me lembrar relatos de alguns pintores portugueses que no início da sua carreira não tinham possibilidades de ver o Louvre ou o Prado ou outro grande museu. Contactaram com as obras dos grandes pintores através das "imagens" dos livros de pintura e foi assim que começaram a pintar.
Quem sabe se o seu aluno poderá guardar essa "imagem" lá no seu "arquivo" e, um dia destes ir à procura de mais alguma coisa...?

José Ricardo Costa disse...

Cara addiragram, eu não estou a criticar os garotos nem nada disso. Estou só a constatar uma realidade do nosso tempo. Julgo que o exemplo que refere relativamente às imagens de outros tempos não funciona aqui pois eles sabiam que aquilo não seria uma "imagem" mas uma cópia imperfeita de uma pintura. O problema hoje, que é novo, será o de tudo ficar reduzido à condição de imagem.
JR

Ricardo Riobom disse...

De facto, não me considero nem nunca me considerei um particular apreciador da pintura enquanto arte. Mas contextos à parte, o grande problema surge quando a "imagem" e o "objecto" se confundem. O resultado é a realidade turva sem fronteira definida entre o concreto e o abstracto e em que aos poucos todos mergulhamos.

Os opostos misturam-se e tudo é redefinido como indefinido.

E depois ficamos todos para além do bem e o do mal, não da forma como Nietzsche gostaria.

addiragram disse...

Há, de facto, esse risco, se a "imagem" se "concretizar" e perder o seu valor simbólico.
Mas, para contrariar esse risco lá estão os professores...