13 janeiro, 2010

COMPRAR FÓSFOROS



Eu estou a leccionar a disciplina de Psicologia B. Tento olhar para o manual da disciplina como olho, por exemplo, para os antigos manuais do Estado Novo: através de um conteúdo ideológico latente que explica o que vemos à superfície.
Neste momento ando com as relações precoces do bebé. E quais são os conteúdos? Tenho o manual aberto à minha frente: a comunicação entre o bebé e a mãe, a interacção entre o bebé e a mãe, a relação privilegiada entre o bebé e a mãe, a sensibilidade e a disponibilidade da mãe, a "linguagem do som e do gesto" da mãe, a mãe-continente, as fantasias da mãe face ao bebé, a relação de vinculação entre a mãe e o bebé.
Ou seja, o pai desapareceu completamente. Deve ter ido à rua comprar fósforos e nunca mais voltou. É verdade que lá mais para a frente a díade é substituída por uma tríade. Uma coisa do género "Afinal havia outro". Mas há um longo período durante o qual, para a psicologia, o pai é uma espécie de fantasma.
Eu estou imaginar a leitura deste manual daqui a 30 anos. Como irão lê-lo? Seguirão uma pista conservadora ou uma pista revolucionária relativamente ao estatuto da mulher? Ou seja, acharão que a sobrevalorização da maternidade face à paternidade é desprestigiante para a mulher (a mulher como mãe) ou que será um sintoma de uma suposta superioridade em relação ao homem (a mulher como motor do desenvolvimento humano)?
Julgo que neste momento é ainda demasiado cedo para saber.

5 comentários:

estela disse...

interessante - na foto escolhida para acompanhar o post o "pai" já tem um filho a seu lado ;)

não sou muito de sobrevalorizar, nem um lado, nem o outro.
é um facto que são as mulheres que carregam os filhos na barriga e que os trazem ao mundo (com ou sem dor). também é verdade que sem a "sementinha" não haveria filhos para carregar na barriga. embora tenha lido há pouco tempo que é mesmo o corpo feminino que "escolhe" o esperma e o "autoriza" a entrar. nada de rapidez e esperteza masculina ;)

o mais importante mesmo será trasmitir o mais importante - e subjacente a todo o processo (este e quase todos os outros): nunca é só um responsável por tudo. somos todos responsáveis por tudo, uns mais numas alturas que outros noutras. muita gente tem dificuldades com papeis aparentemente secundários. mas nada é secundário. senão a fenomenologia já era a maior religião do mundo ;)

abraço

Reinaldo Amarante disse...

Sou Professor de Educação Física. De Psicologia só tive um cheirinho da Desportiva pelo então Prof. Paula Brito. Não conheço o conteúdo dessa Psicologia B.
Eu e minha mulher tivemos duas filhas. Eu assumi sempre as duas gravidezes como NOSSAS. Desde o dia em que sabíamos da concepção até ao nascimento e muito depois, assumi sempre um papel que posso dizer sem falsa modéstia, só me faltou dar à luz... Talvez por isso, num pós 25 de Abril, quando ainda se discutia o papel da Mulher na Sociedade Democrática, eu sempre mudei fraldas (e lavei e passei muitas a ferro...) fiz biberãos de leite e de papa e sopa, dei banho e de comer às crias, levantei muitas vezes de noite para as readormecer. Hoje, elas têm uma relação indiferenciada comigo e com a mãe. Fiz o que entendi como correcto, de livre vontade.
Eu respondi por mim. Nenhum livro o fará.

addiragram disse...

Caro Ricardo
essa dualidade é uma simplificação. Na investigação nessa área houve, de facto, em tempos essa "pecha", que se encontra ultrapassada na sua totalidade.Quem trabalha em saúde mental infantil sabe muito bem da importância do pai para a construção de um desenvolvimento equilibrado da criança. Existe um conceito, usado pelos psicanalistas que trabalham com a Observação directa de bebés que é o conceito de Tríade narcísica.
A importância do pai não o pode transformar num duplo da mãe. O pai tem um papel igualmente continente, em primeiro lugar da própria mãe e também do seu/ deles bebé. Encontra-se em muitas anamneses de crianças com autismos secundários uma falência da presença do pai, entre outras coisas...E a tríade não existe depois.Existe desde o princípio. Importante também é a presença do pai na cabeça da mãe, o que nem sempre existe...

JCM disse...

Zé, acho que a questão é mesmo da Psicologia B. Se fosse a Psicologia A, já a equipa jogava completa. O problema é que para o jogos treino leva-se sempre a equipa B. Depois, dá no que dá. Só para te fazer inveja, estou a dar Filosofia A, "A Crise da Humanidade Europeia e a Filosfia", do Husserl (não vale a pena salivar).

lira disse...

Gostava de pensar que o verão como desprestigiante para o homem. Hoje em dia já se começa a falar em parentalidade, o que me parece bem mais acertado.