21 janeiro, 2010

BRINCAR AO CARNAVAL



Esta fotografia, tirada daqui, é literalmente assombrosa. Um baile, um conjunto a tocar, casais que dançam. É um baile de um Carnaval português em 1967. Certo. Deixemos agora a identificação e passemos à realidade. Ninguém está feliz neste baile. As pessoas olham. Enfim, olham. Quem olha não está feliz mas à procura de uma felicidade que não possui. A ala direita desta fotografia limita-se, durante o baile, a olhar. No centro há um casal que dança. Um casal que dança é uma imagem de felicidade, é verdade. Mas também este casal olha. Ela, com um sorriso subtil e como que a evadir-se, olha para o fotógrafo. Ele, com uma expressão desconfiada, olha para ela a olhar para o fotógrafo.
Afinal, que baile de Carnaval será este? O Carnaval é o tempo das máscaras, da simulação da alegria e de identidades ousadas mas esta gente nem as máscaras teve coragem de pôr. Estão ali como se estivessem a ouvir cantar o fado ou um relato de futebol num domingo à tarde chuvoso.
Perpassa por este baile um acre odor. Não é o odor da melancolia pois a melancolia não é acre. Há qualquer coisa de poético e fresco na melancolia. Chega mesmo a ser colorida como um verde prado outonal visto a partir de uma sala aquecida por um vermelho fogo aconchegador, ao lusco-fusco. O que aqui perpassa é o odor acre da cinzenta e escura depressão.
A única coisa que aqui lembra o Carnaval é o facto de estas pessoas parecerem fantasmas que, sorrateiramente, pela calada da noite, vieram ao mundo real para brincarem aos seres humanos.

4 comentários:

jrd disse...

Excelente a fotografia.
Quanto ao carnaval em 1967?! Era mesmo um entrudo...

T disse...

Tenho mais fotos desse Carnaval de 1967. Gostei muito desse seu texto:)

JMV disse...

Já reli o texto e olhei para a foto meia dúzia de vezes.É isso mesmo.Uma espécie de nevoeiro nacional.

Alice N. disse...

Brilhante!