26 janeiro, 2010

BRIGHT STAR - JANE CAMPION (2009)








Das weiss Band é um filme belo. Brigth Star é um filme bonito. Colocada assim a questão, pode parecer que escrever sobre este último é uma futilidade. Creio, porém, que os sentidos expostos durante muito tempo ao magnífico tendem a perder a acuidade. Precisamos de momentos durante os quais a nossa atenção não seja tão violentamente solicitada para que, renovada, ela se possa expor aos intermináveis convites do sublime.
Eu, que ainda por cima professo a religião dos filmes a preto e branco, saí deslumbrada de Das weiss Band: uma técnica narrativa fabulosa que levanta as pontas do véu da maldade adormecida em qualquer alma, até na mais improvável de todas.
No dia seguinte vi Brigth Star: o romance entre Fanny Brawne e Keats, interrompido pela morte do poeta em Fevereiro de 1821. A paixão romântica não é fácil de filmar: a paixão romântica (estou a falar de um período literário, entenda-se) vive daquilo que nos habituámos a considerar excessos. O exagero torrencial das expressões, a desmesura, a morte inevitável se o ser amado se demora, a alegria porque chega um bilhete com duas palavras.
Este filme é isso, apenas isso. Uma paixão desmedida e resiliente interrompida pela morte. E vale a pena vê-lo? Vale. Vale porque é apenas isso e não precisa de ser mais nada. A realizadora tem a noção exacta de que para mostrar o excesso nada pode mostrar em excesso.
O resto é uma fabulosa fotografia, um guarda-roupa de primeira água. Fanny adora desenhar e costurar os seus vestidos e esse toque handmade, ainda um pouco inexperiente, é nítido em todas as peças.
Jane Campion parte do verso de Keats "A thing of beauty is a joy forever" e sobre ele constrói o filme. O resto não interessa, não interessa que, ao saber da morte de Keats, Fanny se afaste, enlouquecida de dor e se dê a entender que assim permanecerá para sempre quando, algum tempo depois, será Mrs. Louis Lindon.
Evitável teria sido um pormenor cuja culpa pertence à distribuidora portuguesa. Durante o genérico final ouve-se a voz do actor a recitar a famosa "Ode to a Nigthgale". As legendas desaparecem no fim de meia dúzia de versos e, claro, mesmo antes da morte das legendas já o público se levanta em alarido. Ben Whishaw não tem, é certo, a voz de um Sir John Guielgud ou de um Anthony Hopkins, mas eu gostaria de ter ouvido o texto até ao fim, gostaria de ter ouvido as palavras do homem que mandou gravar na sua lápide tumular : "Here lies one whose name was writ in water."
Ele, que aprendera latim, deveria saber que a gloria mundi é transitória, excessivamente transitória.

2 comentários:

Ana Paula Sena disse...

É um filme de que também gostei imenso. Belo nos excessos que apresenta sem excesso, como tão bem assinala.

Gostei de ler a sua apreciação.

Obrigada :)

jrd disse...

Não vi os filmes, mas li o poste e gostei do que 'vi'.
Para mim 'futilidade' é coisa diferente...