21 janeiro, 2010

A BENEFÍCIO DE INVENTÁRIO

A minha aluna Maria Inês de Sousa pede-me, há anos, que lhe deixe os meus sapatos em testamento. Leitores do sexo masculino, não tenteis compreender. Debalde a tenho tentado convencer que sapatos são coisas perecíveis e, além do mais, esperar por sapatos de defunto é vão propósito.
Face às minhas recusas, ela tem feito outras sugestões de objectos menos perecíveis que não vou aqui enumerar para não enfastiar quem não está habituado a estas delirantes atitudes. Hoje, disse-me em desespero de causa: "Olhe, stôra, deixe-me qualquer coisinha."
Posto isto, aqui te deixo esta coisinha, para não dizeres que nunca te dei nada. Para ti e também (a justiça, menina, a justiça!) para os outros que, no final de dois anos das minhas insuportáveis aulas de Latim, já traduziam Horácio que nem gente grande.
RESPOSTA A HORÁCIO OU ODE À IMPACIÊNCIA

Não sou sensata, meu velho,
nem tenho, como Leucónoe, uma paciência dourada
para te misturar os vinhos.
Traduzi as tuas odes,
escandi-te cada verso,
agarrei cada segundo deste dia.
Agora é a minha vez:
que Júpiter, lépido, me diga, agora,
o que para o dia de amanhã
me reservou.

5 comentários:

Inês de Sousa disse...

Estimada professora Ivone,
Lamento informá-la que esta «coisinha» não serve para saciar o meu desejo de possuir algo que perpétue no tempo a nossa afável convivência de dois, e mais um, agora três anos seguidos. Além disto, há os restantes, os da minha infância, dos quais não deve ter as melhores lembranças, reconheço.
Sempre a considerá-la e aguardando a verdadeira «coisinha»
Inês de Sousa

estela disse...

:))

Reinaldo Amarante disse...

Cara Inês,
Desculpe a colherada. Sinto que entre a Prof. Ivone e a Inês deve existir uma relação como muito poucas entre Professora e Aluna.
Não existe NADA MAIS que a Prof. Ivone lhe possa dar que a Inês já não tenha... TUDO é perecível com o tempo, excepto AQUILO que a Inês integrou (apropriou) dentro de si própria. Um ojecto pode ser alienado, pode ser roubado. Aquilo que a Prof. Ivone lhe deu nestes anos, NINGUÉM mais se apropriará, a não ser que a Inês o queira partilhar. Esta é a grande HERANÇA dos Professores.
Penso que não a conheço pessoalmete. Mais uma vez peço desculpas pela intromissão.
Um beijo.
Reinaldo Amarante, professor de EF

Margarida disse...

Deixar os sapatos?
Também aguardo uns Ted Lapidus azuis marinhos eternamente na moda.
Essas heranças, dádivas, confortos-em-forma-de-coisa, só nós entendemos (com a jutiça de imaginar que possam existir cavalheiros com essa nuance sentimental)...
Eu, que desejaria ter podido estudar Latim, levo o verso, pronto-a-usar.
E contente me vou!

Ivone Costa disse...

Isto é uma religião, Margarida. Hoje depois de, durante 90 minutos, lhes desvendar as subtilezas semânticas, fonéticas e outras que tais de um poema da Mensagem, duas alunas, que nunca tinham vindo com tal conversa, esperaram para me colocar uma questão (pensava eu), enquanto os outros saíam. Segue-se o diálogo:
"- Era só para dizer que passámos a aula a olhar para os seus sapatos. São simplesmente magnificentes.
- Ah, suas bandidas! Então, estou eu aqui às voltas com o "plantador de naus a haver" e as meninas a mirarem-me os sapatos? Mas,pronto estão perdoadas por causa do "magnificentes". Parece que a aquisição de vocabulário civilizado começa a notar-se."

Resta acrescentar que citados eram uns modestos Luís Onofre comprados em saldo.
Uma religião, Margarida, uma religião.

Ivone