11 janeiro, 2010

A BECRE


A biblioteca escolar morreu. Na minha escola a biblioteca deu lugar à BECRE. E o que é BECRE? É um espaço onde existem computadores, televisões, livros e carteiras. Mas é usado para tudo excepto para ler. O barulho é tanto, a algazarra é tal que torna a leitura impossível.
A antiga biblioteca é agora um sítio que funciona como lugar para reuniões de professores, para onde vão os professores enquanto esperam que os chamem para uma substituição, para onde vão jovens conversar como espaço alternativo ao do bar, para onde vão por vezes os alunos expulsos da sala de aula, para aulas de apoio, para aulas de leitura, aparecendo vinte e tal crianças que fingem que vão ler, para ver filmes, para a internet. Na antiga biblioteca fala-se alto, grita-se, dão-se gargalhadas que ecoam por todo o espaço e até se corre. A antiga biblioteca é, por isso, um espaço aberto e dinâmico e de grande actividade. Há mesmo professores modernos, abertos e dinâmicos e com grande actividade que preferem ver a antiga biblioteca transformada em BECRE.
O mais dramático será ainda o facto de a morte da antiga biblioteca ter sido encarada com normalidade. Ninguém tem saudades dela nem dela já sente a falta. Na escola actual, a escola moderna e tecnológica, uma biblioteca já não serve para nada.
Os livros por lá continuam e, felizmente, irão continuar. Por muito inúteis que possam ser, ainda são eles que conseguem dar um ar de dignidade àquele espaço que a perdeu completamente.

10 comentários:

Alice N. disse...

E assim é por todas as moderníssimas escolas deste país. É por isso que Portugal está tão à frente...

Anónimo disse...

Pois!... Há algum tempo que venho constatando a miragem de biblioteca que se designa de BECRE. E todo o mal fosse apenas esse!... Há custa de uma política educativa de esvaziamento do conteúdo das aprendizagens, emerge e impõe-se uma coisa que dá pelo nome de literacia de informação e que me parece que para além de nada informar, nenhuma pedagogia possui sobre a criação de hábitos de leitura. O que se passa nas BECREs é um carnaval! Vamos a ver onde isto vai parar!

disse...

Na minha escola passa-se o mesmo. Talvez seja o mesmo em todo o país. Ainda se um qualquer estudo confirmasse que há mais e melhores leitores hoje do que há uns anos atrás! Nas horas que lá passo, por força da Sala de Estudo, oiço desabafos de alunos do secundário que dizem não ter local para estudar, para trabalhar. Também eu não tenho, respondo-lhes.
Enfim, é o eduquês no seu melhor. E os livros, quando deixarem de ser objectos decorativos, a ocupar espaço precioso, podem ser relegados para um qualquer armazém.
Como nós.

manufactura disse...

...concordo plenamente... e alguns dos livros lá continuam inacessíveis... muitos fechados à chave atrás de umas janelas, sem vidros, mas com arame... na biblioteca da UBI até já se come e bebe (grandes tainas no meio da algazarra)...os alunos que querem ter um pouco de silêncio para ler não têm hipótese, e é escusado reclamarem pois têm como resposta que o velho "conceito" de biblioteca, aqui, já foi definitivamente ultrapassado...

Ega disse...

O post, claro está, sempre certíssimo na ironia e crítica.

Mas não deixo de notar que, pelo menos nas escolas básicas e secundárias onde andei, as bibliotecas deixavam muito a desejar no que a livros diz respeito. Não sei quem raio escolhia os livros, mas de uma coisa sei, de livros essa pessoa não sabia.

Abraços

Anónimo disse...

As bibliotecas escolares, por exigência de orçamentos absurdos, ou por "evolução" dos tempos, raramente disponibilizavam a informação necessária a quem quer que a procurasse. Desajuste facilmente ajustado pela via digital.

A perda de todas as outras caracteristicas do espaço é que é lamentável.

Pensar no conceito biblioteca, induz-me paz, silêncio, reflexão, concentração, prazer. Ha! E o cheiro? Papel velho e cera do chão. Inconfundível.

Pois... hoje ando de pendrive num bolso e telemovel no outro!

Ler continua a ser um prazer. Reconheço o papel importante que as bibliotecas tiveram na instalação desse prazer no meu sistema operativo.

É uma baixa valiosa a lamentar.

jrd disse...

Apenas isto:
"É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido" José Saramago

disse...

Adenda ao meu comentário anterior: consta que há instruções para que de futuro só os livros mais lidos estejam expostos, sendo os restantes encaixotados ou remetidos para outros locais. Eu sei: parece mentira. A informação surgiu quando perguntei à minha amiga bibliotecária pela Brasileira de Prazins, que tinha estado a ler na semana passada durante a permanência na Sala de Estudo. Fiquei a saber que o Camilo irá morar num armário envidraçado a colocar na Sala Polivalente e a obra completa de Shakspeare será encaixotada porque "ninguém a lê". Em breve, os alunos julgarão que os únicos escritores são S. Meyer, Rodrigues dos Santos ou Isabel Alçada...

Nuno Filipe Vieira Gomes disse...

O meu comentário sobre a pedagogia vai neste sentido: http://www.ted.com/talks/kiran_bir_sethi_teaches_kids_to_take_charge.html

Obrigatório ver, especialmente para quem educa ;)

Abraço Professor Ricardo!

JMV disse...

Não sou vingativo por natureza, mas o meu maior sonho é ver a BECRE reagir a uma muuuuuito longa falha energética...tudo à mãozinha e a aprender de novo como se faz para pôr os olhos a correr no papel...