11 dezembro, 2009

SEXO E SEXUALIDADE

Leonardo da Vinci, Coito, c. 1492-4, Biblioteca Real de Windsor


Durante um breve zapping fui dar a um canal religioso no qual decorria uma conversa entre um padre e uma juíza católica. A páginas tantas falaram de sexualidade.
Eu sempre pensei que a sexualidade fosse um modo eufemístico de falar sobre sexo. Uma forma pudica e discreta de abordar um tema duro e difícil. Enfim, que estivesse para o sexo como "partiu" para alguém que morreu. Porém, observando, estupefacto, a naturalidade com que os dois interlocutores falavam de um tema tão "difícil", descobri que a realidade é bem mais complexa do que pensava.
A sexualidade não tem nada que ver com sexo. Está para o sexo como a alma para o cérebro. Quando pensamos no cérebro, pensamos num órgão como o fígado ou os pulmões que, graças a uma estrutura electroquímica, permite realizar um conjunto infinito de sinapses que estão na origem dos nossos pensamentos, raciocínios, imaginação, criatividade, enfim, do que chamamos "vida espiritual".
Quando falamos da alma entramos também num campo espiritual, só que já despojado de qualquer base material. A alma não é um órgão, não é uma estrutura física, não tem extensão, volume, peso, átomos. É como se a vida espiritual fosse tornada possível por uma espécie de sopro, uma aragem imaterial que permitisse fazer voar o que há de mais nobre num ser humano.
O que se passa entre sexo e sexualidade é qualquer coisa deste género. Na sexualidade há uma flagrante ausência de sexo do mesmo modo que na alma não existem sinapses, circunvoluções ou neurotransmissores. De que falamos quando falamos de sexo? De pessoas que num dado estado de excitação sexual estabelecem uma interacção física cujo objectivo será atingir o orgasmo. De preliminares, posições, erecções, esperma, fluidos vaginais, suor, batimentos cardíacos, dilatação da pupila.
E do que falamos quando falamos de sexualidade? A sexualidade funciona quase como uma ideologia, uma representação mental imaginária de uma realidade física. Na sexualidade há afectos, sentimentos, projectos de vida, identidade, gravidezes, filhos que nascem do amor entre dois seres humanos. Ok, há ainda doenças e preservativos. Mas fala-se disso sobretudo como uma espécie de ameaça bíblica com o objectivo de valorizar o lado puro, saudável, espiritual do amor. Ou seja, não o sexo, o sexo puro e duro, aquilo que fazem os animais sem alma, mas a verdadeira sexualidade, a sexualidade livre e responsável, a sexualidade como uma doutrina, uma filosofia de vida, uma moral, um código deontológico que, se respeitado e cumprido, permite valorizar o verdadeiro "eu" de cada ser humano.
Trata-se, pois, de um outro nível de realidade e não de uma outra maneira de falar da mesma realidade. Não se trata apenas de uma depuração, de um filtro purificador mas de um jogo de linguagem completamente distinto. Como se deixássemos de jogar râguebi para passarmos a jogar xadrez.
Jogo que, como sabemos, até o próprio papa poderá jogar.

2 comentários:

jrd disse...

Quando fazemos zapping tudo pode acontecer; desde um canal religioso até um de vendas pela Net, passando por um pornográfico e até pela TVI.
E claro, estamos sujeitos a ouvir um padre a falar de sexo, que é mais ou menos o mesmo do que escutar o Cavaco a dissertar sobre Saramago ou Santana Lopes sobre Chopin ou ainda Pinto da Costa sobre a transparência no futebol.

Alice N. disse...

Excelente texto. Deveria ser de leitura obrigatória em qualquer "aula" de educação sexual (mais essa que nos caiu em cima).

É um tema difícil, sim. Apesar de não ter a menor motivação nem ter recebido a mínima formação para dar as ditas "aulas", mandaram-me coordenar e executar o "projecto de educação sexual" (lol) da minha direcção de turma (8.º ano). Basicamente, coordeno-me a mim própria e, à boa maneira portuguesa, tenho de me desenvencilhar. Há dias, lá fui eu para uma aula de Formação Cívica, fingindo muita vontade de falar no assunto (às vezes, o professor também é um fingidor). Procurei precisamente transmitir algumas das ideias apresentadas no seu texto, embora de forma mais simples, tendo em conta a idade dos alunos e também a minha falta de eloquência. E parti precisamente da diferença entre "sexo" e "sexualidade", condição animal e condição humana. Correu bem, acho eu, mas, francamente, por mim, ficaria por ali. Mas os meus alunos acham muito bem. Alguns até defendem que deveria existir a disciplina, com 45 minutos semanais. Enfim.