08 dezembro, 2009

A PORTA


Mal olhei para esta pintura do João Alfaro, lembrei-me da Alegoria das Três Idades, de Ticiano. Não, obviamente, pela linguagem pictórica, completamente diferente, mas por causa da estrutura trinitária dos seus conteúdos exprimindo três fases distintas da vida de um ser humano. O sentido da narrativa é, porém, muito diferente nos dois quadros.

No quadro de Ticiano temos, num primeiro plano, do lado direito, a infância, do lado esquerdo a juventude. A infância surge aqui associada à inocência e à inconsciência. Crianças e anjos não se distinguem e o estado de dormência das primeiras é muito significativo. A juventude, por sua vez, nega o estado anterior. O amor associado à música exprime a ideia de uma fase emocionante e eloquente da vida. Certamente, a fase suprema da nossa existência. Finalmente, num plano mais afastado, temos a velhice. Relegar a velhice para um segundo plano, não resulta por acaso. O velho que se vê ao fundo, acompanhado de uma caveira, está como que a despedir-se da vida, como se se encontrasse já numa outra dimensão a meio caminho entre a vida e a morte. Compare-se ainda a escala dos três elementos. Os jovens são maiores do que as crianças mas, depois, o velho, a caminho do seu próprio desaparecimento, torna-se ainda mais pequeno do que as próprias crianças.

Veja-se, agora, a lógica narrativa do quadro de João Alfaro. Vemos, como em Ticiano, a infância do lado direito. E, diga-se de passagem, não é uma infância ontologicamente diferente daquela que nos é dada por Ticiano. O cavalo onde facilmente imaginamos uma criança baloiçando exprime igualmente um estado de inocência e inconsciência perante a vida. A grande diferença está, porém, na fase seguinte. Em vez de encontramos o amor e a juventude, encontramos uma cadeira vazia, estática, numa imutável rigidez, em oposição ao ritmo musical de um cavalo que anteriormente baloiçava. E agora, repare-se neste pormenor espantoso. O que se encontra entre o cavalo da infância e a cadeira vazia da juventude? Uma paisagem cujo horizonte se perde no infinito. Ora, quando se é criança, tudo é possível. Podemos ser tudo na vida, a vida é ainda um conjunto enorme de possibilidades que ainda não foram queimadas. Porém, como nos vamos encontrar mais tarde? Explorando as nossas possibilidades, descobrindo o mundo, a vida, o nosso eu e os seus respectivos sentidos? Não. Vamos dar com uma cadeira vazia. A criança que baloiçava outrora, que viajava alegremente no seu cavalo de madeira, em vez de sair por aquela porta rumo ao infinito, sentou-se numa fixa e rígida cadeira de madeira. Trata-se, então, de um quadro irredutivelmente negativo? Temos aqui um quadro negro da vida? Não. Neste sentido, acaba por ser até mais positivo do que o de Ticiano. Tentarei explicar porquê.

Vejam-se as escalas e a perspectiva no quadro de Ticiano. Infância e juventude em primeiro plano, em crescendo, depois, num plano afastado e em tamanho reduzido, a velhice. Ora, no quadro de João Alfaro, a infância é a mais afastada e com um tamanho mais pequeno, a cadeira, entretanto, surge com um tamanho maior e finalmente, a mulher mais velha, aparece diante dos nossos olhos num primeiro plano e com um tamanho superior aos anteriores.

Ora, quer isto dizer que no quadro do João Alfaro,contrariamente ao de Ticiano, não devemos ver a maturidade como um afastamento, uma perda, um caminho para a morte ao longo do qual nos vamos diminuindo, mas como uma realidade bem presente, activa e dinâmica. Como assim? Esta mulher que vemos em primeiro plano, brincou, há muito tempo, naquele cavalinho. Sentou-se depois na cadeira. Mas surge agora levantada, firme, numa espécie de verticalidade orgulhosa. E mais do que isso. Está parada mas não está estática. Percebe-se que está a pensar, a reflectir, diria mesmo que está prestes a tomar uma decisão importante. Mais ainda: inclina ligeiramente a cabeça para o lado direito, como se se estivesse a preparar para se movimentar. Uma perna à frenta da outra. Respondamos honestamente: em que direcção se prepara ela para caminhar? Bem vestida, elegante, em que direcção se prepara ela para caminhar? Para trás. Para onde não se dirigiu quando esteve sentada na cadeira. Este quadro de João Alfaro é, por isso, ao contrário do de Ticiano, uma mensagem de esperança. Não olha para o futuro como uma luz que se vai apagando ao fundo do túnel. Pelo contrário, a luz ao fundo do túnel é aqui a infância que se afasta cada vez mais à medida que vamos envelhecendo. O João Alfaro chamou-lhe solidão. Ele lá sabe porquê. Provavavelmente será a solidão necessária em certos momentos da vida, como a solidão do príncipe Andrei no Guerra e Paz. Provavelmente uma solidão que irá desaparecer mal aquela mulher se aproxime da porta aberta.

3 comentários:

Alice N. disse...

Lindíssimo quadro, de facto, e mais uma análise de Mestre que li com o interesse e admiração de sempre.

Modestamente, proponho também a que se segue. É só uma entre várias possíveis, pois julgo que este belo quadro é suficientemente rico e enigmático para permitir várias leituras.

O cavalo de madeira também me fez pensar na infância e tudo o que a ela associamos, mas a cadeira levou-me a outra possível interpretação (confesso alguma dificuldade em ligá-la à juventude, essa idade irrequieta e de espírito aventureiro). Pela sua natureza estática, vejo mais a cadeira como símbolo de inércia ou comodismo. O próprio cavalo, embora ligado à inocência, ao encanto e ao sonho, num certo sentido, não está tão distante da cadeira quanto possa parecer, já que quem nele se balança vive uma ilusão de acção (um movimento que leva a nenhures e prende o sujeito ao mesmo lugar). Já a pessoa que está em primeiro plano poderá optar por ali permanecer, olhar para trás ou avançar. O espectador sabe o que está para trás - uma paradisíaca, infinta mas distante perspectiva -, mas só aquela mulher sabe o que se lhe oferece pela frente. Que portas ali se abrirão? Que perspectivas se estendem diante dos seus olhos? Parece haver uma decisão importante a tomar. Virá daí a sua solidão?

José Ricardo Costa disse...

Cara Alice,uma das riquezas da obra de arte está no facto de ser uma obra aberta. Claro que há elementos objectivos na obra, muitos deles só compreendidos por especialistas em arte ou especificamente num pintor. Porém,a partir do momento em que a obra é filtrada pela nossa consciência e sensibilidade, o seu destino torna-se imprevisível. Daí a sua interpretação ser perfeitamente legítima. E enriquecedora. Sempre é mais uma pista.

Abraço,
JR

AB disse...

Muito interessante a análise e interpretação desta obra!... Ao mesmo tempo é aliciante descobrir o tanto que há para VER aqui.