14 dezembro, 2009

O VÉU


Ter lido quatro ou cinco vezes a Carta sobre a Tolerância de John Locke deve ter-me dado a volta à cabeça. Eu sou a favor de uma total liberdade religiosa e, por isso, completamente contra a proibição do uso do véu por parte das mulheres, sejam raparigas nas escolas, sejam funcionárias públicas nos seus locais de trabalho.
Acontece que já por duas ou três vezes em que defendi isso, vieram com o seguinte argumento: é justo que nos nossos países as mulheres sejam proibidas de usar o véu pois nos países deles as mulheres ocidentais são obrigadas a usá-lo. Ou seja, se eles obrigam a usar, nós devemos obrigá-las a não usar. E se estão mal, mudem-se. Olho por olho, dente por dente.
Ora, este argumento é bastante disparatado.
Para nós, andar ou não de véu é completamente indiferente. Cada pessoa é livre de usar o que bem entender. Porém, nos países islâmicos, não é assim. Imaginemos uma mulher africana que vive numa aldeia tribal de Angola na qual algumas mulheres andam com o peito descoberto e outras não. Se essa mulher vier para Portugal irá ser obrigada a tapar o peito pois, de acordo com a nossa cultura, com excepção do topless na praia, não é socialmente aceitável uma mulher andar assim na rua. Imaginemos, entretanto, que uma mulher portuguesa, por exemplo, uma médica, irá passar uns meses na aldeia tribal angolana. E que lhe dirão: "Desculpe, mas vai ser obrigada a andar com o peito descoberto, pois as nossas mulheres quando vão para Portugal são obrigadas a cobri-lo". Ora, o que irá sentir a médica portuguesa? O que irá ela sentir, sabendo, entretanto, que naquela aldeia há mulheres que andam assim e outras não? Depende do gosto, da vontade, da disposição, da personalidade de cada uma. Para além da humilhação e vergonha por mostrar publicamente uma parte do corpo que, pela sua educação e cultura, foi habituada a cobrir, irá sentir que está a ser estupidamente discriminada e alvo de uma irracional retaliação.
Também por esta ordem de ideias, muitas viúvas portuguesas que ainda cobrem a cabeça e vestem de preto, deviam ser proibidas de andar assim. O facto de as viúvas, ao contrário dos viúvos, cobrirem a cabeça, não é um sinal de inferiorização da mulher? Como se irá sentir uma rapariga muçulmana proibida de entrar com um véu numa universidade, vendo, depois, na rua, viúvas vestidas de preto e com lenços na cabeça?
Uma das grandes riquezas das nossas sociedades liberais é precisamente a diversidade tornada possível pela liberdade individual. Eles, os muçulmanos, não são assim? Pior para eles. Agora, não faz sentido proibir-lhes o que para nós constitui um direito básico: a liberdade individual. Que inclui, naturalmente, a liberdade de usar véu.

10 comentários:

Margarida disse...

Isto é complicado...
E torna-se...doentio.
Isto é um problema crescente. A intolerância e o medo agigantam-se (é facto).
Depois reclama-se do primarismo do ' quem não está bem, que se mude'.
A questão é? Para onde?
...só se for para a Lua...

José Trincão Marques disse...

É óbvio.

jrd disse...

Simples. Uma rapariga muçulmana proíbida de entrar com um véu numa Universidade é bem capaz de se sentir solteira, casada, em união de facto ou divorciada, mas nunca viúva...

JCM disse...

Em última análise, o véu da foto tem um efeito mil vezes mais erótico que os peitos desnudados no top-less. Nos casos idênticos aos da foto, acho que o véu deveria ser obrigatório (mesmo para ocidentais), embora o hijab seja também satisfatório, pois o seu potencial de produção de "jouissance" é semelhante. Nos outros casos, a burka seria absolutamente prescrita, para ocidentais inclusive.

C.M. disse...

O que admiro nos EUA (apesar de todas as misérias e discriminações) é a convivência de todas as raças e credos... bem, estou a pensar numa New York, e não propriamente numa cidade do Alabama ou do Tennessee...todavia, a nossa Europa é deveras discriminatória, xenófoba e... cruel. Indiferente, já não acredita em nada: nem nas suas raízes culturais nem religiosas...

addiragram disse...

A violência sobre o diferente e a arrogância associada dão aso a mais violência...Sabe-se isto mas continua-se.
Já agora estava interessada em ouvir a sua opinião de pensador sobre o "Àgora".

José Ricardo Costa disse...

Cara addiragram, eu não conheço o filme, daí não me poder pronunciar a seu respeito. Trata-se, porém, de uma época fascinante, uma daquelas onde eu bem gostaria de ir parar se pudéssemos viajar no tempo, a época em que a cultura grega vai sendo lentamente apagada pela cultura cristã tal como a luz de uma lâmpada é gradualmente "apagada" pela luz do Sol.
JR

addiragram disse...

Bonita, dolorosa e verdadeira, essa sua última frase.

GlorifiedG disse...

E quando o véu que tapa a cabeça se transforma em algo que tapa completamente a face? Parece-me que a questão tem mais a ver com a identificação de um individuo na sociedade civil. Podemos permitir liberdade de permanecer irreconhecivel?

José Ricardo Costa disse...

Caro GlorifiedG, já tinha pensado nisso. O caso, assim, muda bastante de figura. Se a identificação pública das pessoas, por exemplo, na rua, numa loja, numa escola, não é culturamente indiferente, desse modo teremos legitimidade para poder proibir sem se tratar de uma medida fútil e ligeira.
JR