21 dezembro, 2009

O VAZIO DO PRESÉPIO

Ingmar Bergman, Fanny e Alexander

"As pessoas não serão capazes de olhar para a posteridade, se não tiverem em consideração a experiência dos seus antepassados"
Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France

Há um provérbio, salvo-erro, oriental, que diz mais ou menos o seguinte: "Para uma criança, uma montanha é uma montanha. Anos mais tarde, já crescida, gosta de pensar que uma montanha não é uma montanha para, depois, na velhice, voltar de novo a compreender que, afinal, uma montanha é mesmo uma montanha".
É por isso que com a idade nos deveríamos tornar mais conservadores. Eu tento sê-lo o mais possível, apesar de, infelizmente, estar muito longe de o conseguir. Ser conservador, ao contrário do que muitos pensam, não é ser politicamente reaccionário, defender acerrimamente as grandes injustiças do mundo, estar ao lado dos maus da fita, ser contra qualquer tipo de mudança.
Ser conservador consiste em saber manter uma ordem que não é propriedade privada de nenhuma época, movimento ou ideologia. O mundo tem uma ordem. Mudar o mundo não deverá significar mudar a ordem mas apenas o que a ordem tem de mau. O que, por exemplo, os revolucionários utópicos franceses do século XVIII quiseram foi apagar a ordem anterior para erguer uma nova. Até o calendário destruíram. Como se o tempo voltasse à estaca zero. O mesmo aconteceu com as sociedades comunistas ou fascistas.

Tal desejo esteve na origem de vários pesadelos: êxodos populacionais, polícias políticas, campos de concentração, os comícios de Nuremberga, uma religião política. Tentou-se criar cientificamente e racionalmente o homem novo como o dr. Frankenstein, fascinado, no seu laboratório, deu origem a um novo ser vivo. Um homem novo que esquecesse o homem velho, as tradições do homem velho, a religião do homem velho, as crenças do homem velho, os rituais do homem velho.

Quando eu era criança esperava pelo momento de fazer o presépio. Ia apanhar musgo para o campo, tirava as peças das caixas onde repousavam durante um ano. Depois, ajudava a distribuí-las pela paisagem e à noite era iluminado por umas candeias pequeninas alimentadas a azeite. Entretanto, cresci e deixei de ligar ao presépio. Achei mesmo que o presépio não tinha gracinha nenhuma. Enquanto adulto nunca voltei a fazê-lo e mesmo com dois filhos, nunca o cheguei a fazer. Hoje, tenho pena de não fazer o presépio. De já não ir para o campo apanhar musgo e passar um sábado chuvoso a tirar as peças das caixas e a construir uma velha aldeia cujo centro é um estábulo onde repousa o Menino Jesus aquecido pelo calor telúrico de dois serenos animais . Tenho pena de não ser suficientemente conservador para conseguir fazer o presépio. Porque, claro, é difícil ser conservador. Fácil, mas mesmo muito fácil é ser revolucionário.

Hoje, o presépio foi substituído por um pai natal pindérico pendurado nas varandas e janelas das casas. É normal que assim seja. As nossas sociedades modernas dificilmente compreenderão o mistério do presépio. O pai natal pendurado na varanda é uma boa imagem da nossa mentalidade positivista, experimental, de causas e efeitos (as prendas), reduzida ao esplendor da pura exterioridade e objectividade.

Difícil, mas mesmo muito difícil é ser conservador dentro de casa. Ser conservador num mundo que está todos os dias a pedir-nos para sermos diferentes.

6 comentários:

disse...

Partilho a nostalgia. Mas creio que certas tradições, como o presépio, carecem de uma razão de ser. A minha são os meus netos, que me dão a possibilidade de voltar a ser novamente criança sem abdicar da minha consciência de adulto ("Ter a tua alegre inconsciência / e a consciência disso!"). Graças a eles, olho com carinho para tradições que na minha juventude repudiei.
Bom Natal.

Alice N. disse...

Gostei muto do seu texto. Uma bela homenagem ao Natal.

Em certos aspectos, é difícil ser conservador, porque também é difícil conservar a sabedoria das crianças. Tornamo-nos irremediavelmente crescidos. Mas podemos sempre tentar...

Votos de um feliz Natal.

Abraço,

Alice

VNI disse...

Alguém disse um dia qualquer coisa como "tudo o que torna melhor o mundo merece ser conservado". Eu ainda "conservo"o presépio e com as coisas que considero boas sou muitíssimo conservadora!
Bom Natal!Continuo a seguir este blog e ele sempre a surpreender-me o que em altura de "mesmidade" é sempre uma boa prenda!

addiragram disse...

Lá em minha casa foi um pouco diferente. O meu lado conservador está na árvore de Natal e o meu lado revolucionário está no presépio. Ora vejamos porquê.Os meus pais, num acto revolucionário, tinham relegado o presépio para os confins do nenhures. Faziam, contudo, da preparação da árvore de Natal um momento mágico. Cada bola, desembrulhada cuidadosamente, era colocada com todo o cuidado. Nós conhecíamos os enfeites, um a um , e tínhamos por eles o maior dos carinhos.E cada ano comprava-se sempre mais uma ou outra bola que vinha enriquecer o nosso "tesouro". Depois vinham as velas a sério( qual luzes eléctricas...) que eram acesas num momento especial, sempre com muito cuidado, para que nenhuma pegasse ao pinheiro.Era tão bom aquele momento que chegámos a fazer uma cama junto à árvore para não perdermos nenhum momento. O vazio que mais tarde se gerou foi a dificuldade que senti de voltar a sentir o que sentia nesses tempos.A árvore,continua a estar presente cá em casa por esta altura, mas algures a chama apagou-se. A ela veio juntar-se há uns anos valentes um presépio. E porquê? Porque os filhos resolveram introduzir esse cunho humanizado ao Natal. A apanha do musgo passou a fazer parte dos novos rituais da casa. Perguntava-me sempre se não estaria a trair a minha tradição, mas encontrava sempre alguma consolação ao descobrir a alegria dos miúdos com a feitura do presépio. Assim, quando se quando fala do "vazio do presépio", eu leio-o mais como o "vazio da magia". Julgo ser esse o melhor testemunho que poderemos transmitir aos nossos filhos e netos, e essa pode acontecer das mais variadas maneiras, ou então, de maneira nenhuma.
E...umas boas festas, para toda a "família" de "Ponteiros Parados".

José Ricardo Costa disse...

Obrigado, e um bom Natal também para vós.

JR

Mateso disse...

Tenho a sorte de ainda apanhar musgo, de fazer o presépio e sobretudo de clamor contra a desordem na ordem de um mundo que afinal é nosso. Nós nunca nos deveríamos calar ,e muito menos obliterar a ordem dos tempos.
Finalmente acho a sua coragem em publicar algo " tremendamente sério" num mundo de clichés vazios mas muito à la page.
Boas Festas!