29 dezembro, 2009

O SOLDADO CONHECIDO

Vale a pena entrar dentro deste livrinho e observar algumas dos magníficos retratos de August Sander (e continuar a procurar na net em busca de outros, por exemplo, aqui, ou aqui).
Seleccionei este por causa do que nele mais me surpreende: o excesso de normalidade deste soldado alemão. Na banda desenhada e no cinema houve sempre uma clara tendência de diabolizar os alemães, desde os mais altos dirigentes nazis até ao comum dos soldados. Nos filmes, os soldados alemães são quase sempre mais antipáticos, perversos e malignos do que os ingleses, americanos, russos ou resistentes franceses.
Ora, nós olhamos para este soldado e parece haver aqui um desfasamento entre o seu rosto e expressão, e a tenebrosa farda que ostenta. Se em vez da farda surgisse de fato e gravata rapidamente se poderia transformar num jovem advogado ou empresário. De polo e jeans e seria facilmente um "next door guy". Nada neste rosto sugere malignidade e este soldado alemão não seria certamente uma excepção. Um anjo alado no meio de diabos. Os soldados alemães eram pessoas normais, tão normais como este soldado alemão. Os soldados alemães que morreram nas praias da Normandia eram iguais aos soldados americanos que lá morreram. Na frente leste, eram iguais aos soldados soviéticos.
Este retrato é, por isso, bastante pedagógico. Ajuda a compreender que o mal não escolhe rostos, nacionalidades, fronteiras, nem se trata de uma patologia que afecta pessoas que se desviam de um padrão. Eu sei que custa acreditar. Mas os nazis eram seres humanos perfeitamente normais. Acontece que o mal é um perigo que, sorrateiro, espreita em cada esquina da normalidade. Ontem ali, hoje aqui, amanhã acolá.

5 comentários:

jrd disse...

É dos livros(!), que a História sempre foi "escrita" pelos vencedores.

Já agora, essa de que os nazis eram seres perfeitamente normais?... Só se foi antes do parto e mesmo assim.
(Trata-se de um aparte, porque entendi perfeitamente).

José Trincão Marques disse...

Este post lembrou-me o filme "Das Boot", realizado em 1981, pelo alemão Wofgang Petersen.

JMV disse...

Muito boas pistas.

Anónimo disse...

Digníssimo:

Acho que o Sr. está confundindo um membro do Exercito Alemão com um membro da SS. O soldado do exercito alemão era convocado para servir e deveria ir sob o risco de ser fuzilado por deserção. Ele poderia ser comunista, batista, pianista, social-democrata ou adorar esquiar no gelo. Nada disso importava. Importava apenas que ele era um cidadão de um país em guerra e deveria atender ao chamado da pátria. Estava neste caso o futuro filósofo Paul Feuereband, autor de “Contra o Método” e milhares de outros jovens desafortunados. Caso totalmente diverso eram os SS. Estes eram uma milícia do Partido Nazista. A SS não convocava ninguém. Seus membros eram voluntários e nem todos os candidatos eram aceitos. Foi o caso do futuro prêmio Nobel Günter Crass. Esses eram forçosamente Nazistas. Quando Hitler chegou ao poder (triste dia!), os SS foram equiparados ao exercito para revolta dos militares. Os membros do exercito poderiam ter a cara mais angelical do mundo porque eram apenas jovens. Muitos eram certamente nazistas, mas muitos outros não eram. Ninguém pode acusar uma pessoa que serviu ao exercito de nada e ele nem sequer deve se sentir envergonhado disso, salvo se cometeu algum crime de guerra. Na Rússia era exatamente a mesma coisa, a maioria dos membros do Exército Vermelho não eram comunista, já os membros da NKVD ou outra organização similar, de caráter voluntário, certamente eram. É como diz o filósofo e ex-jogador Romário: “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa” (sic).

José Ricardo Costa disse...

Obrigado pelo esclarecimento. De qualquer modo, não anula o sentido do que quis dizer. Ainda que o soldado seja um SS, isso não faz dele um ser diabólico e inumano. Há-de haver empregados de escritório que, como pessoas, serão bem piores do que muitos SS. Pertencer às SS não implica necessariamente agir em função de emoções perversas e pensamentos diabólicos. Muitos deles acreditavam estar certamente a realizar uma acção patriótica e até benéfica para a humanidade.
Abraço,

JR