22 dezembro, 2009

O SERMÃO

Discutia há dias, no bar da escola, com uma colega, por causa disto. Engraçado, engraçado foi o seguinte. Ela concordava completamente comigo mas, ao mesmo tempo, preferia continuar a pensar como pensava, ou seja, o contrário de mim. Entendo isso perfeitamente.
Se eu estiver a ver o Benfica ser massacrado por outra equipa, a levar um baile de futebol, a merecer perder por 3 ou 4, ainda assim vou torcer para que o Benfica ganhe o jogo. Eu sei que é injusto para a outra equipa (e para a minha) mas, ainda assim, prefiro que se cumpra esta injustiça. Noutro contexto, também não é por saber que fumar faz mal que o fumador irá deixar de fumar.
Voltando à minha colega, embora admitindo que não é justo nem racional impedir uma rapariga de cobrir a cabeça com um véu, queria continuar a pensar que deve ser proibido. Eu disse-lhe que isso era xenofobia. Ela admitiu que sim mas que não podia fazer nada contra isso.
O que terá passado pela cabeça de filósofos como Platão, para os quais o conhecimento da verdade conduzirá naturalmente a uma conversão ética? Que o conhecimento é virtude pois quem conhece o bem não pode fazer o mal, quem conhece o justo não pode ser injusto?
Não tenho a menor dúvida de que, para o senso comum, e Espinosa sabia-o bem, vale mais um belo sermão no cimo de uma montanha do que qualquer tentativa de conversão racional.

3 comentários:

JCM disse...

Há aí um problema, para começar. De facto, essa tua colega não admitia como justo e racional alguém andar de véu. Apenas não tinha argumentos, isto é, capacidade argumentativa, para te responder. A questão nem sequer é de akrasia, pois ela não possuía duas crenças entre as quais estivesse partilhada. Ela acreditava, no fundo, que o justo e o racional, isto é, o bem, reside na proibição do véu. Ela não respeitava a tua posição, mas a ti, o que é bem diferente. Ela não concordava contigo, apenas afirmava isso perante a tua autoridade. Concordar é ter o coração, "cor", no mesmo lugar. Ora os vossos corações estavam em lugares distintos, como ela própria confessa.

Isto levanta um segundo problema. Que a leitura se faz do que é conhecer para Platão? Há dias, literalmente, comecei a sentir um mal estar profundo perante a interpretação do conhecer em Platão. Há qualquer coisa que está muito mal contada, muito mal lida, muito mal explicada. Esta nuvem toldou-me quando ouvi, por ocasião de uma conferência sobre o Protágoras, alguns dos principais especialistas portugueses em Platão. A leitura deles seria idêntica à que fazes no post. Mas para Platão conhecer não será um mero "saber que", nem sequer um desocultar o que está velado (já que estamos a falar de véu). É mais do que isso.

Julgo que a tua frase «para os quais o conhecimento da verdade conduzirá naturalmente a uma conversão ética» espelha a essência desse equívoco. O conhecimento da verdade, enquanto saber que..., não conduz naturalmente a uma conversão ética. Para Platão, o conhecimento da verdade só pode ser ele mesmo uma conversão ontológica e consequentemente e ao mesmo tempo (sem qualquer mediação ou diferenciação)gnosiológica e ética. Conhecer a verdade é ser outro, e ao ser outro agir de outra maneira, é ultrapassar o momento em que se está partilhado por duas opções e tornar-se no bem ou no justo. O conhecimento da verdade é uma metamorfose. Se Platão não for isto, então ele não passará de um idiota. Não há em Platão uma identidade entre ser e conhecer? Eu conheço não porque tenha um saber discursivo sobre algo, por exemplo, o bem, mas porque me torno nesse mesmo bem. Conhecer a verdade é algo que antecede efectivamente o "saber que" e o "saber fazer". Aquilo a que chamamos saberes teóricos e saberes práticos são já formas empobrecidas, ou meramente expressivas, de um saber mais originário.

Tu e a tua colega possuíam duas crenças diferentes, uma melhor argumentada do que outra, mas a conversão platónica está muito além da crença. Precisaria de pensar mais fundadamente a identidade entre a episteme e o «to on». Já agora, esta leitura desvia por completo o argumentário de Nietzsche contra o homem teórico. Platão (Sócrates é uma inexistência, ou melhor uma personagem romanesca) não é um mero homem teórico. Nem Nietzsche conseguiu apanhar o velho Platão. [Cada dia que passa estou mais platónico. Toda a história da Filosofia é um longo, e muitas vezes inútil e entediante, comentário às estranhas narrativas platónicas.]

Abraço,

jcm

estela disse...

uiiiiiiiiii

jcm *aplauso*...

uma das coisas que sinto muita falta na vida de quase todos nós é precisamente da radicalidade da verdade. vê-la (à verdade - ai, meu querido husserl...) ou dar com ela, ou finalmente compreendê-la é mudar-se para o lado dela. onde quer que esteja, doa o que doer. com toda a consequência.
e amar a verdade é aguentar o massacre - razão pela qual me atrevo a dizer que platão seria sportinguista ;)

José Ricardo Costa disse...

Conversão ontológica?
Conhecer a verdade é ser outro?
Conhecer a verdade é uma metamorfose?
Conhecer o bem é tornar-me nesse bem?
Estela, radicalidade da verdade?

Sabem o que me ocorre dizer, ou melhor, gritar? Socorro! Socorro!

Abraços!

JR

JR