28 dezembro, 2009

O REGRESSO DA ESCRAVA TRÁCIA



Samuel Beckett é bastante fotogénico. Fotogenia facilmente vincada pelo seu habitual ar triste, distante, amargurado. Normalmente, associa-se esse seu ar ao absurdo, ao vazio, ao non sense do seu teatro. Lêem-se as suas peças e, zás, está explicada a sua expressão de alguém que vive neste mundo como um exilado num país estranho e distante.
Daí eu relevar esta fotografia de um Beckett que ri. E pergunto: não será esta a verdadeira expressão de Beckett, quer dizer, a que melhor reflecte o seu teatro?
Pois como reagiu a escrava trácia quando observou Tales de Mileto caindo no buraco? Qual a normal reacção de uma pessoa quando vê uma outra escorregar numa casca de banana? E quando vemos alguém engasgar-se enquanto morre a rir? E quando vemos duas pessoas de diferentes países, tentanto comunicar ideias através de gestos? E quando vemos alguém às apalpadelas numa sala às escuras, com um lenço nos olhos, à procura de um gato preto que não está lá? Rimos, rimos, rimos. E quanto mais absurdo mais vontade temos de rir.
O que aquele homem se deve ter divertido ao escrever as suas peças.

1 comentário:

jrd disse...

Já não era sem tempo. O que eu esperei por ver um Godot, perdão, um sorriso de Beckett.