30 dezembro, 2009

O ÓPIO DOS INTELECTUAIS




Este pequeno filme ao qual cheguei por esta via merece ser analisado. Ou melhor, denunciado. Um filme que fala de exploração, de totalitarismo, de alienação, de servidão voluntária, não faz outra coisa senão manipular as consciências e sentimentos das pessoas através de uma técnica que é precisamente típica dos regimes totalitários.

Já por diversas vezes fiz a seguinte experiência: estar a ver um filme de terror, suspense ou que faça verter lágrimas, e tirar-lhe o som. Sem o som, todas aquelas imagens perdem a razão de ser. Ou melhor, a narrativa continua a existir e nós temos consciência disso. Por exemplo, um horrível assassino que se esconde atrás da porta e que se prepara para assassinar uma jovem inocente. Mas, tirando-lhe o som, as imagens adquirem uma espécie de neutralidade. Ou seja, transformam-se numa realidade puramente objectiva, factual, fazendo perder no espectador toda a carga emocional. Daí uma vez alguém ter dito que a música e os sons são o "inconsciente" do filme. Não damos por eles enquanto nos prendemos racionalmente à narrativa mas são precisamente eles que conferem todo o sentido ao filme e configuram a nossa relação com ele.

Neste pequeno filme, o interesse está na relação entre o texto e as imagens. Há, portanto, um texto, texto esse que pretende fazer passar uma mensagem. Porém, ao fazer passar essa mensagem, usando as imagens como suporte, acaba por condicionar (manipular) completamente a nossa percepção dela. Se nós ouvíssemos ou lêssemos este texto sem outro tipo de suporte, teríamos uma consciência do texto completamente diferente. Ora, o que faz o filme? Pega em imagens completamente normais e neutras (pessoas a caminhar numa rua, uma dança, pessoas a trabalhar numa fábrica, uma auto-estrada, prédios, etc.) e associa-lhes uma mensagem negativa e apocalíptica, ajudando ainda à festa uma música macabra e à qual associamos naturalmente coisas negativas. Ora, é precisamente esta técnica que era desenvolvida nos regimes totalitários e opressivos, mais concretamente, nos tenebrosos regimes comunistas e fascistas.

Porém, temos que ver o seguinte: a televisão (imagem) é, neste sentido, intrinsecamente manipuladora. Porquê? Porque apresentar ideias (realidade complexa) recorrendo à imagem (realidade simples) implica naturalmente uma simplificação dessa realidade. Seja num regime totalitário, seja numa democracia. O autor deste filme cai, por isso, num paradoxo. Denuncia a servidão humana, a alienação, a inconsciência, sendo ele os principal instigador dessa servidão. São pessoas como o autor deste filme que, ao desenvolverem uma fé em regimes que conduziriam finalmente a humanidade a uma desalienação, libertação, felicidade e estado de perfeição, acabaram por ser cúmplices dos regimes mais tenebrosos do século XX.

2 comentários:

jrd disse...

Reconheço que valeu a pena inserir o poste, já que me permitiu vir aqui aprender e reflectir com a análise que fez ao filme e ao pequeno texto transcrito, o que, como é óbvio, não significa concordar na totalidade.
Apenas me atrevo a adiantar umas breves considerações:
- Saberá certamente melhor do que eu, que o som e a imagem se complementam, ou melhor se interpenetram, sendo que aquele, muitas vezes, serve para definir o espaço/tempo da imagem.
O próprio cinema mudo, "usou o som" para sublimar a intensidade da imagem e tornar mais completa a percepção da ideia.
Desagregá-los pode significar, amputar o todo, não sendo claro que daí resultem vários todos, apenas, partes difusas e inconsequentes.
- Na minha mais do que modesta perspectiva, a mistificação das massas, política, religiosa ou outra, constitui uma técnica velha como o tempo dos homens e atravessa os tais regimes na horizontal, não é exclusiva de nenhum, mas instrumento de todos.
A servidão humana, com ou sem grilhetas, sempre existiu, o que tem mudado é o conceito de moral com que a sociedade "convive" com ela.
Salvo melhor opinião, o paradoxo somos nós próprios, os outros são "só" o inferno. No que me diz respeito, apesar de me esforçar, não tenho dúvidas.
A cada um o seu "ópio", passe o exagero.

E por aqui me fico, desejando-lhe um óptimo 2010, com muitos e bons postes.

Um abraço

José Ricardo Costa disse...

Caro, jrd,

Eu não digo que o filme não diga algumas verdades e que o que pretende criticar esteja acima de qualquer crítica. A minha questão é mais de forma do que de conteúdo. O perigo de ensinar através das imagens ou discutir ideias através de imagens. Até hoje, na escola, parece que já não se consegue explicar uma coisa aos garotos sem recorrer a imagens, ao "filmezinho", ao "documentariozinho". As imagens não explicam nada e sempre que associadas à palavra esta acaba por ficar sempre subjugada.

Abraço e bom ano também para si

JR