05 dezembro, 2009

O MUNDO A SEUS PÉS

Fui hoje à Biblioteca Municipal ver a exposição relativa aos 100 anos de futebol em Torres Novas. Uma exposição imperdível para quem gosta de fotografias antigas. Possui ainda uma verdadeira relíquia: a camisola vestida por José Torres (natural de Torres Novas) quando marcou o golo que deu o terceiro lugar a Portugal no mítico mundial de 1966 ou uma belíssima camisola dos anos 20. Para os saudosistas melados como eu, passa ainda um filme (dos arquivos da RTP) da inauguração do actual estádio municipal, em 1969, na qual também participei, num desfile (não me lembro se alinhado ou desalinhado mas prefiro imaginar a segunda possibilidade).
A exposição vale pelo seu todo. Gostaria, porém, de relevar esta fotografia, não tanto pelo seu valor histórico mas pelo seu impacto visual.
Eu não sei foi feita com a intenção de se tornar no que é. Se foi, é uma obra-prima fotográfica. Se não foi, é um daqueles acasos miraculosos que surgem como se possuíssem a sua própria racionalidade.
Eu já vi esta fotografia (também como pintura) em diversas situações e com outras personagens: o Infante D.Henrique, Marquês de Pombal, Napoleão, Hitler, Estaline, Salazar, Kim-il-Sung. Imagens em que um herói domina completamente uma paisagem através de um olhar que sugere a verdadeira dimensão do seu poder.
Neste caso, o impacto é ainda maior em virtude da completa descontinuidade nas escalas. Repare-se no modo como Fernando Cunha subjuga a paisagem como Gulliver em Liliput. Nós olhamos para esta fotografia e a ideia que dá é a de que estamos perante uma espécie de artífice platónico de quem depende a existência das coisas. Aliás, o próprio corpo de Fernando Cunha preenche verticalmente toda a fotografia, os pés estão na base, a cabeça quase que toca no topo.
Mas há ainda aqui um pormenor que não pode ser desprezado: o cigarro na mão. Este cigarro é muito interessante pelo seguinte. Quando aquelas figuras que referi anteriormente foram pintadas ou fotografadas, a ideia seria sugerir, graças a uma engenhosa retórica visual, uma espécie de aura sobrenatural, de alguém que sendo humano, estaria, todavia, para lá da humanidade.
Ora, este cigarro acaba por ter um efeito algo paradoxal e, por isso, fascinante. Por um lado, humaniza a personagem, torna-o um de nós, o tipo que encontramos à porta do café, retirando-lhe, desse modo, a aura de pureza e de super-homem associada aos grandes estadistas que alimentam uma relação paternalista com os seus povos. Mas, ao mesmo tempo, ao criar essa efeito íntimo e doméstico enquanto olha para a obra que vai brotando dos seus olhos e dos seus pés, acaba por naturalizar ainda mais o acto e, ao naturalizá-lo, torna-o ainda mais eloquente. Porquê?
Porque, de cigarro na mão, tão descontraído como se estivesse à porta do café ou à espera de um transporte, este homem faz nascer um estádio sem qualquer tipo de esforço. É uma relação natural e não épica, ao contrário do que sucede com a imagem dos ditadores ou dos heróis históricos. É é precisamente ao retirar-lhe a carga mítica que acaba por alimentar ainda mais essa carga. Tal como um deus, seja um deus pagão ou o deus judaico-cristão, a obra nasce espontaneamente, naturalmente, sem esforço, enquanto fuma um vulgaríssimo cigarro, um dos muitos cigarros que fumará ao longo do dia.
Finalmente, só mais um pormenor: a sua solidão, uma solidão quase romântica (reforçada pelo cigarro), no limite direito da imagem, transforma ainda mais esta imagem numa emanação directa da sua vontade ou da sua imaginação criadora: tal como na Criação do Mundo, olhamos para a direita e vemos o criador, viramos os olhos para a esquerda e vemos a criatura.
Hegel dizia de Cristo que este teria reunido numa só figura o transcendente e o imanente. Sem querer exagerar e cair em comparações bacocas, quer-me parecer que esta imagem consegue o mesmo efeito. Pela escala, pela pose, pelo ar contemplativo, cria-se a sugestão de estarmos perante alguém que não é um de nós. Mas, com um cigarro na mão, que terá acendido e que será posteriormente apagado pelo pé, vemos um homem que foi ali com o espírito de "Vou ali e já venho" e que olha para uma grande obra como se esta fosse exalada naturalmente pela sua própria respiração enquanto deita o fumo pela boca e pelo nariz.

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