26 dezembro, 2009

EU ESTIVE LÁ


Ontem, ao ver no telejornal a tradicional missa do dia de natal, na praça de S. Pedro, reparei na quantidade impressionante de pessoas que, durante a missa, tiravam fotografias ou filmavam o papa.
Quem está habituado a fotografar ou a filmar sabe que a relação que se estabelece com o mundo através de uma máquina não é uma relação natural e espontânea mas artificial. A máquina cria uma distância, um corte entre o observador e o mundo. Se uma pessoa estiver numa festa sempre com o olho colado à máquina, a sua relação com a festa está muito longe de se poder identificar com a relação das outras pessoas que festejam. Quem está na festa, festeja. A festa não faz parte do passado nem do futuro mas de um presente que se esgota em si mesmo. Porém, quem fotografa, para além do corte provocado pela máquina entre o fotógrafo e a festa, está a criar artificialmente um conjunto de imagens a partir de factos que, ao serem congelados, irão encontrar a sua razão de existir no futuro, já depois da festa ter há muito terminado.
Ao ver então as fotografias, o fotógrafo irá associá-las à festa. As fotografias são as fotografias da festa. Mas, sendo fotografias da festa, são de uma festa na qual ele não esteve. Ou melhor, esteve, mas como ausente. Quem esteve na festa e for ver aquelas fotografias, irá reconhecê-las como sendo as fotografias da festa onde efectivamente esteve. O fotógrafo, porém, irá apenas ver as fotografias que havia visto através da máquina e não através do seu olho, que é diferente do "olho da máquina"
Ora, o que acontece com os católicos que fotografam ou filmam o papa durante uma missa é precisamente a mesma coisa. Só que aqui é mais interessante na medida em que este processo acaba por ser uma expressão sintomática da relação de muitos católicos com a sua religião.
Aqueles católicos não estão ali para rezar. Nem sequer para ver o papa. Estão ali para fotografar o papa. Tal como em Paris fotografam a Torre Eiffel e em Bruxelas o Manneken-Pis.
Quem reza, reza. Quem fotografa enquanto reza, fá-lo para preservar uma imagem com a qual irá manter uma relação toda a vida. Só que sendo uma relação eterna, acaba por ser uma relação vazia pois a pessoa, o seu espírito, o seu olho, não estiveram efectivamente lá. Daí que, dias, semanas, meses ou anos depois, ao ver as fotografias da missa na praça de S. Pedro celebrada pelo papa, tenha apenas a ilusão de lá ter estado, a ilusão de ter lá estado como estiveram, de facto, as pessoas que, de facto, rezaram com o papa.
Alguém imagina os muçulmanos que fazem a sua peregrinação a Meca de máquina fotográfica ou de filmar na mão, enquanto rezam? Não. Porque contrariamente ao que acontece com a esmagadora maioria dos católicos modernos, a religião para eles não é um fenómeno artificial, puramente exterior e de cariz social e turístico. Ou seja, continua a ser um processo espiritual. E, como sabe todo aquele que faz fotografia, as máquinas fotográficas não têm espírito.

4 comentários:

estela disse...

excelente observação! tirando enfim, a última frase ;)

agora fico à espera da segunda parte, em que vamos adiante nisto de estarmos lá, sobretudo onde mais gostamos, embora permanecendo ausentes.
que bichos somos... que onde melhor se sente, menos presentes estão, mais agarrados ao espírito (!) do congelamento emocional...

bom ano JRC!
e boas fotos ;)

e bom ano para a Ivone
e os seus poemas.

jrd disse...

Não sou fotógrafo nem católico, mas entendo a mensagem.
Não é possivel fazer coincidir um "contreplongé" feito ao Papa, com uma oração.

À margem e a propósito dos sapatos: Serão Prada ou Armani?...

José Ricardo Costa disse...

Estela, obrigado e bom ano também para ti!

Caro jrd, segundo o Osservatore Romano o papa não usa Prada mas Cristo.
JR

jrd disse...

Meu Caro,
Em matéria de acessórios papais sou um ignorante e se se tratar de sapatos, nem se fala, até para que não me digam: Quem te manda a ti sapateiro, tocar rabecão!?...
Boa semana