10 novembro, 2009

UM ARGUMENTO CRUCIFICADO

Há qualquer coisa de paradoxal neste post do Jorge. Afirma que a rejeição de um símbolo religioso numa escola põe em causa a nossa identidade. Acontece que um dos aspectos que mais contribuiram para a nossa identidade foi a separação entre a religião e o estado.
A religião tornou-se coisa do foro privado, íntimo, pessoal e, ainda que vivida institucionalmente (igreja), está circunscrita a um domínio socialmente autónomo.
Ora, defender a presença de um símbolo religioso num local público, com o pretexto de que isso contibui para reforçar a nossa identidade, é o mesmo que dizer que essa identidade é reforçada, fazendo precisamente o contrário do que está na sua origem. Não dá.

5 comentários:

Margarida Graça disse...

O facto de banirmos os ícones, não significa que nos tenhamos desenraizado dos valores neles representados, creio. A laicização do estado não acabou com os valores cristãos, antes pelo contrário, a república assenta nesses valores, valores ancestrais, que a tecnologia ajudou a perpetuar, nomeadamente a fotografia. O problema da "queima" dos ícones reside, na minha humilde óptica, na desorientação criada, pois não se oferece alternativa sólida, dando lugar a um caos reinante, que não é pão, não é queijo, nem é nada.

República dos Bananas disse...

Zé, mas será que é mais válido retirar, por decreto, um símbolo que sempre lá esteve?
Suponhamos:
naquela turma havia 29 alunos Católicos Apostólicos Romanos, cumpridores da palavra da Igreja e que se sentiam bem com aquele símbolo; é justo, lógico ou aceitável que aquele símbolo seja retirado, por força de lei, lei essa que apenas um quer ver cumprida...porque se sente incomodado?
A minha questão pouco tem a ver com "identidade", terá mais a ver com o fundamentalismo de certas leis, ou antes, com tanta legislação que se produz, que seria desnecessária se o bom senso imperasse.

José Ricardo Costa disse...

Eu entendo a tua objecção e até me sinto tentado a subscrevê-la. O problema é que se aceitarmos politicamente isso estaremos, virando o argumento do Jorge ao contrário, a pôr em causa a nossa identidade. Se assim for, porque não colocar crucifixos nos hospitais? E nas estações de comboio? E nas repartições públicas? E nos CTT? Ok, não faz mal a ninguém, os crucifixos não deitam veneno. Só que transformar a Europa num Irão ou Paquistão de segunda, enfraquece-nos perante o verdadeiro Irão e o verdadeiro Paquistão. Nós somos melhores do que eles porque não temos crucifixos nas salas de aula e nos outros sítios. Podemos tê-los à vontade, sim, nos pescoços, por toda a casa, nas igrejas, na catequese ou até nas escolas católicas. E poderemos sempre atirar-lhe isso à cara.
JR

República dos Bananas disse...

:-D))

Eu preferiria dizer que somos melhores que eles porque somos capazes de retirar os crucifixos sem ser por obrigação...Mas, isso possivelmente é uma utopia.

Anónimo disse...

1 - Separar a igreja do estado. - Check.

2 - Transformar espiritualidade em sinonimo de religião. - Check.

3 - Ignorar hipocritamente a transferência de "crente" para "consumidor". - Check.

4 - Questionar e discutir a metedologia sem por em causa os objectivos da mesma. - Check.

5 - A "geração rasca" assiste impassível ao nascimento da "geração manada". - Check.