10 novembro, 2009

TIMIDEZ




Eu sempre gostei de pessoas tímidas. Talvez por eu próprio também ser tímido. É por isso que esta aguarela do João Alfaro me chamou a atenção. Toda ela converge para o modo como a mão esquerda agarra os dedos da mão direita. Os grandes líderes, as pessoas que julgam ter as melhores ideias, prontas a serem transmitidas, que gostam de ser o centro do mundo, que se afirmam a partir do modo como dominam os outros, que são possessivas, são pessoas que gostam de apontar o dedo. E quanto mais esticado melhor. Um dedo esticado num braço também ele esticado. Todos aqueles que gostam de construir um mundo à sua imagem e semelhança e que julgam que o mundo nada é sem eles, vivem de esticar o dedo. Até Deus, no momento em que cria Adão, como revela Miguel Ângelo, o faz de dedo bem esticado, enquanto o dedo do segundo ainda se encontra flácido, como se ainda não estivesse a entender o que lhe está a acontecer.
O que se passa com esta rapariga é precisamente o contrário. Em vez de apontar para o mundo, em vez de ter as mãos livres para que possam estar preparadas para agir, prefere antes agarrar-se a si própria. Agarra-se a si própria como se soubesse que só consigo própria poderá contar. Aliás, o contraste com o umbigo prestes a manifestar-se é aqui muito interessante. O umbigo quer manifestar-se, expor-se perante os olhares do mundo. Direi mesmo que quase se vislumbra sem disso a rapariga ter consciência. Como se o umbigo tivesse vontade própria e autonomia face à sua consciência. Só que as mãos traem esse desejo de exposição, os dedos fecham o que a camisola está prestes a abrir.
É precisamente isto que se passa com as pessoas tímidas. Daí a enorme subtileza deste retrato.

1 comentário:

AB disse...

Concordo por inteiro com a apreciação aqui apresentada!