05 novembro, 2009

TASCAS E TASQUINHAS


Uma das maiores pragas que infestam actualmente Portugal são os restaurantes cujos nomes começam por Taberna ou, pior ainda, por Taverna. Mas ainda pior é mesmo o amaricado conceito de “tasquinha”, uma espécie de tasca em versão azul-bebé. Uma aberração, uma grave e despudorada traição à velha e honrada tasca de outros tempos.
As tabernas tinham nomes que faziam jus à sua identidade ontológica. Ia-se para a taberna do Mário Russo, do Abílio, do Bué. Ou simplesmente para o Mal Atilado ou Zé da Ana. Sítios onde se bebia mais do que se comia. Com serradura no chão e pipas atrás do balcão, não com a famigerada ideia pós-moderna da decoração (enfim coisa de decoradoras urbanas e arquitectos de interiores que comem Chocapic ao pequeno-almoço) mas com vinho a sério para se beber enquanto se ia escarrando para o chão de cimento.
Mas o que são actualmente as tabernas ou as (até tenho vergonha de dizer) tasquinhas? Limitam-se a explorar sem vergonha a nossa fome de uma autenticidade perdida. Mas uma pessoa que vai a um restaurante chamado Taverna d’el Rei engana-se a si própria, julgando que voltou ao bom sabor dos velhos tempos. Não voltou. São normalmente restaurantes com azulejos horríveis nas paredes, balcões frigoríficos a dar para as mesas e a televisão sintonizada na TVI. Depois comem-se coisas que, ou são ideologicamente traiçoeiras ou mesmo ultrajantes para um português sério.­
No primeiro caso, temos como exemplo o “doce da avó”. Eu já não suporto olhar para uma ementa e encontrar “doce da avó”. Pronto, estou farto O que é o doce da avó? Um doce conventual com muita amêndoa, noz, ovos moles? Não. Uma mixórdia com natas, leite condensado e bolacha torrada. Tudo industrial e para enjoar ao fim de duas colheres, atacando-se então o enjoo com mais dois ou três goles de Ice Tea, Seven-Up ou Coca-Cola.
Já no segundo caso temos como exemplo os bifinhos com cogumelos. Mas desde quando é que um homem come uma coisa chamada “bifinhos”? Uma coisa acabada em “inhos”? Dá-se o leitinho ao bebé, põe-se a papinha na mesa, ele pede aguinha quando tem sede e nós damos. Agora meter um homem a comer bifinhos não tem pés nem cabeça. Na velha taberna alguma vez se comiam “bifinhos”? Ok, havia os molhinhos ou os jaqui­zinhos. Mas não tem nada a ver. Porque os bifinhos são uma degeneração do honrado bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Agora, os mo­lhinhos e os jaquizinhos são molhinhos e jaquizinhos porque se chamam mesmo assim. Não há molhos nem jaquins. Também já houve um jogador do Porto chamado Vermelhi­nho e outro do Benfica chamado Nelinho e não tinha mal nenhum. O problema só surge quando se chama Alfredinho ao Alfredo.
Não nos enganem mais. Não chamem taverna ao restaurante nem doce da avó ao Macdonald´s das sobremesas. Se querem fazer qualquer coisa que possa lembrar a antiga taberna ponham ao menos serradura no chão. Que é para podermos cuspir à vontade enquanto acabamos de beber o Ice Tea.

In "Jornal Torrejano"

8 comentários:

Fred disse...

Está excelente! Adorei ler isto.


Um abraço.

bons temposhein disse...

Excelente! Há quem escreva assim e quem julgue que escreve...
Diz bem: Para nosso desgosto, o "gosto dos outros" passa pelo plástico e qualquer chafarica, mais ou menos, burnida lhes serve de manjedora, sobretudo se for "franchising".

Margarida Graça disse...

Uma amiga minha um dia, durante um debate sobre estes novos tempos, saiu-se com a seguinte máxima:

"A globalização é uma fábrica imensa de empacotamento de discursos."

E mais palavras para quê? Desde a confecção do fato do Sr primeiro ministro, às suas teatrais posturas, viagens, palavras e quejandas, tudo se globaliza, em função de discursos que se pretendem perpetuar no poder: da moda, da economia, das tecnologias, da leitura, da educação.

Mas atenção, sempre em defesa do cifrão, para quem não sabe, do dinheiro. Admiram-se? Perguntem aos vossos alunos se sabem o que é um tostão. Claro, se não sabem o que é uma personificação ou um metáfora!... Por que motivo haviam de conhecer o nome do Nobel da Literatura? Ora essa... reza a lenda que o homem até comia sopas de Saramago...

PS: onde se lê alunos, deverá ler-se jovens que embarcaram em promessas de sonhos feitos de ilhas em porvir, que o governo, nomeadamente Santos Silva, identifica como jovens qualificados, preparados para enfrentar os desafios da economia de mercado!...

E se fugi ao assunto, as minhas desculpas...

lira disse...

Genial!

José Ricardo Costa disse...

Lira, um beijinho para o bebé!
JR

República dos Bananas disse...

Excelente...e eu que pensava ser o único a zurzir na sobremesa preferida do me filho :-D)))

lira disse...

Obrigada! Ela, com certeza, retribuirá.

C.M. disse...

Tabernas a sério para homens a sério!Como já os não há...