21 novembro, 2009

NÃO VÁS TRABALHAR, MALANDRO

Quando era garoto, ainda que não precisasse, gostava de trabalhar durante as férias. Perto de Torres Novas havia uma fábrica na qual trabalhei vários anos seguidos, muitas vezes para, em turnos, fazer trabalhos duríssimos como carregar contentores durante 8 horas quase sem parar.
Numa idade em que gostava de me levantar às duas da tarde, tinha que me levantar cedíssimo para ir trabalhar. Em Setembro, andei na apanha da maçã, com temperaturas de 30 e tal graus. Às 7 e 30 da manhã lá estava eu à espera do tractor que me levava para o campo.
Trabalhei ainda numa fábrica de rações, num armazém de tecidos, dei serventia a pedreiro, andei a apanhar passas (trabalho duríssimo, todo o dia inclinado), rocei erva (outro trabalho terrível).
O meu pai era comerciante. Andava eu ainda na escola primária e, durante as férias da Páscoa, do Natal ou do Verão, ia para a loja ajudar. Atendia pessoas ao balcão e fazia recados. Ainda mal tinha acabado de aprender a tabuada e já andava nos bancos, nas finanças, nos correios, fazendo recados.
Senti sempre um enorme orgulho em trabalhar. E quanto mais duro era o trabalho mais orgulho eu sentia. Sentia-me responsável, adulto, integrado na própria realidade e consciente das texturas sociais. Convivi com operários, com trabalhadores agrícolas e aprendi com todos eles. Pensando nisso agora, estou certo de que isso contribuiu para me tornar num adulto capaz de controlar os seus impulsos, enfrentar dificuldades e fazer sacrifícios em caso de necessidade.
Daí a minha perplexidade perante notícias como esta. Repare-se: ainda que seja trabalho domiciliário e leve. Os jovens portugueses estão mesmo condenados a não poderem crescer. Na escola, como se sabe, reina a arbitrariedade, a irresponsabilidade, o desleixo. Mas depois também não os deixam trabalhar, ainda que não tenham um pingo de inteligência ou a mínima vontade de estudar e de andar na escola.
Eis o que faz fazer política a partir dos bares e discotecas do Bairro Alto. Trabalho? Naquelas cabecinhas cheias de casamentos homossexuais, legalização das drogas leves e de proibição de rodeos em Portugal, o trabalho não deve passar de um conceito estudado nas universidades e o fato de macaco uma roupinha muito pouco cool de acordo com o gosto tão left-trendy dos meninos do Bloco de Esquerda.

8 comentários:

ciudadano liberto disse...

José Ricardo, esperemos que o BE reconsidere a proposta que pretende apresentar depois de ler o seu testemunho. Bebi do mesmo cálice e estou inteiramente de acordo consigo. Neste particular, é pena não quererem os de cá imitar o que se passa no estrangeiro, já que é normalíssimo qualquer estudante universitário ter um pequeno "job" para os "alfinetes", além do ganho em experiência...

marteodora disse...

Zé Ricardo,
logo que pude, comecei a trabalhar para ganhar uns trocos e não sobrecarregar os meus pais.
Os meus pais tiveram, igualmente, uma loja, na qual eu, ainda na ecola primária, dava a ajuda qua podia. Em casa dos meus avós e dos meus tios alentejanos, eu ia com eles para a terra, apanhar o que fosse, com 8 e 9 anos.
Para ir acampar, andei na apanha do tomate (e madrugava às 5h e 30m, mas diverti-me muito). Além disso, em casa, uma vez que os meus pais trabalhavam, fazia muitas vezes o almoço e o jantar e ia às finanças e ao banco, etc, etc, etc.
Durante a faculdade, ao fim-de-semana, dava pequenas explicações aos miúdos lá da terra que me pediam.
E não foi isto que fez com que eu seja contra a legalização dos casamentos homosexuais; mas também, lá por eu ser a favor, não é isso que unicamente preenche a minha cabeça.
Penso que os miudos devem ter responsabilidades e podem acumular, perfeitamente e com vantagens, pequenos trabalhos com a vida escolar. Só lhes faz é bem.

Porém, uma não tem nada que ver com outra.

marteodora disse...

Ah, mais uma coisa, aquilo que eu disse no comentário anterior não faz de mim militante ou apoiante de Blocos, PS, PSD, CDU,PP, ou outro qualquer.

José Ricardo Costa disse...

Margarida, eu não estabeleci qualquer ligação entre esta proposta do BE e o casamento homossexual. Se queres que te diga, não tenho objecções relativamente a esse casamento. Penso é que a identidade do BE, demasiado presa a este tipo de causas e a uma relação obstinada com a modernidade, o conduz a estes desvarios e urbanas parvoíces.

JR

marteodora disse...

Desculpa, mas perante esta frase:"Naquelas cabecinhas cheias de casamentos homossexuais, legalização das drogas leves e de proibição de rodeos em Portugal, o trabalho não deve passar de um conceito estudado nas universidades e o fato de macaco uma roupinha muito pouco cool de acordo com o gosto tão left-trendy dos meninos do Bloco de Esquerda." pareceu-me evidente a correlação.

Anda bem que percebi mal.

José Ricardo Costa disse...

Margarida, se eu disser que uma pessoa X tem a barriga cheia de chocolate e já lá não cabe mais nada, a frase não sugere qualquer manifesto contra o chocolate. Ora, ao afirmar "Naquelas cabecinhas cheias de casamentos homossexuais, legalização das drogas leves e de proibição de rodeos em Portugal, o trabalho não deve passar de um conceito estudado nas universidades e o fato de macaco uma roupinha muito pouco cool de acordo com o gosto tão left-trendy dos meninos do Bloco de Esquerda."

estou apenas a sugerir que há mais coisas para comer para além do chocolate. É o problema do BE: a sua obstinação relativamente ao chocolate, revelando muito pouca empatia com a sopa, os legumes e a fruta.
JR

zemanel disse...

Caro JRC
Concordo inteiramente consigo. Este desvario do Bloco a meter-se dentro de casa com o trabalho das crianças só é comparável com o desvario de sinal contrário do Nersant em querer impingir o gosto pelo empreendorismo com aulas de marketing e gestão infantil!
As crianças Senhor?
...Perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem.

Miguel e Rita Clara disse...

Defender a honra Urbana!!!
Em Lisboa também se podia trabalhar sendo miúdo.
Não tinha lojas nem terras mas aos 15 anos fiz o secretariado do I congresso de Sociologia do Trabalho, algum tempo depois fui embaladora de medicamentos numa mutinacional farmacêutica. a durante anos fazia colónias de férias para ter o MEU dinheiro!!
O Trabalho é claramente um valor em desuso, Pertencemos à sociedade do Lazer!!!
Aliás se bem recordo a geração de 60 quis acabar com o trabalho, a rotina e a família ( tudo coisas muito maçadoras e acinzentadas). Ao que vejo foram bem sucedidos!!!
Fico com as facturas pois aos outros deixo as fracturas!!!