09 novembro, 2009

MURO DE BERLIM

Sou absolutamente insuspeito em matéria de comunismo. Apesar de ser um garoto, estive na célebre manifestação da Fonte Luminosa em 1975 e sei o que passámos, vindos de Torres Novas, para conseguirmos entrar em Lisboa. Sempre manifestei publicamente as minhas opiniões relativamente ao pesadelo comunista que, pela sua duração (ainda dura) e descontando a trágica solução final, foi muito pior do que o nazismo e os diversos fascismos. Em Torres Novas, há dois comunistas que na rua me viram a cara, certamente por coisas que terei escrito relativas ao PCP e ao comunismo. Estou pois à vontade para dizer o que se segue.

O Muro de Berlim não estabelecia uma demarcação entre o Céu e o Inferno. A RDA não era o Inferno e a RFA não era o Céu. Nem a RDA era o Céu nem a RFA o Inferno. Vendo bem, o Céu e o Inferno nem sequer existem. A verdade é que nos países de leste havia aspectos de fazer inveja a um ocidental, sobretudo a um português. Por exemplo, o elevado nível educativo, cultural, científico das pessoas. Do mesmo modo que nos países ocidentais, havia bens sagrados que, para um cidadão de leste, eram simples miragens. E nem preciso de falar de bananas e calças de ganga. Basta falar de liberdade, da ausência de censura e de um "Pide" em cada esquina, em cada mesa de café, em cada cadeira do cinema onde podiam ser vistos todos os filmes e não apenas os que o Partido deixava ver.

Há um texto de Diderot (século XVIII), chamado "Suplemento à Viagem de Bougainville", no qual é feita a descrição do modo de vida dos índios do Taiti. Diderot, neste texto, pretende mostrar que o modo de vida desses indígenas é muito superior ao nosso. Também Montaigne, nos seus "Ensaios", cerca de 200 anos antes de Diderot, nos dá, a nós europeus, um murro no estômago com a descrição de comportamentos de índios brasileiros que acabam por mostrar o lado ridículo das nossas instituições ou comportamentos.

Certíssimo. Mas também não consigo imaginar Diderot a querer importar os comportamentos dos índios taitianos para os introduzir nos salões parisienses, nem Montaigne a sair da torre do seu castelo para ir viver no Brasil. Ora, o que se passa entre nós e os antigos regimes comunistas, é precisamente a mesma coisa. Poderíamos olhar para eles e sentir inveja de algumas coisas. Poderíamos invocar algumas dessas coisas para melhor termos consciência das nossas limitações e defeitos. Mas uma coisa é certa. Sinceramente, honestamente, espontaneamente, ninguém no ocidente, de boa-fé, poderia desejar uma sociedade assim.
O muro foi feito para impedir os habitantes de lá de fugirem para o lado de cá. Não para impedir um êxodo de ocidentais para o lado lá. Bem ou mal, caiu. Paz à sua alma.

5 comentários:

jrd disse...

Com algumas nuances, poucas, seria capaz de subscrever o que aqui tão brilhantemente escreveu.
Também estive na Alameda, não “nessa”, mas “na outra” manifestação.
Sendo assumidamente independente, nunca gostei, nem gosto, dos muros de pedra e dos outros, ambos “rigorosamente vigiados”.
O embuste que estava para lá do muro, deu lugar à “nossa” alegria, mas também ao desencanto de muitos dos que por lá esperavam a liberdade.
Se me permite, com todo o respeito, os muros não têm alma, nem os que não deixam sair nem os que não deixam entrar.
Boa semana

zemanel disse...

"Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto" escreveu Mário Carvalho - curiosamente um livro que tem tanto de estimulante como de inquietante sobre a militância comunista.
E também não perco de vista a importância de "Goodbye Lenin" - que pode ser um dos pontos de partida para discutir o Muro.
Sempre preferíveis a qualquer número da "vida soviética".
Mas o pensamento unificado que por aí anda, com muita 9ª sinfonia de Beethoven misturada,e em que a mínima interrogação divergente é ocultada, escondida e censurada, coloca-nos também grandes perplexidades.
Porque há muitos "muros" para derrubar...

zemanel disse...

Quando fiz o meu primeiro comentário a este post, desconhecia o facto seguinte que o Público de hoje noticiou:
A família da actual chanceler Merkel mudou-se da RFA para a RDA em 1954.
Tal como a família da srª, provavelmente sucedeu o mesmo com outras famílias alemãs.
Apenas um reparo à sua afirmação em que fala das fugas do orente para ocidente...as razões para o muro ter sido erguido foram bem mais fortes. Que tal uma passagem por alguns bloggers como sérgio ribeiro -blog anónimo do século xxi.
Cumprimentos democráticos (sempre!)
zémanel

José Ricardo Costa disse...

Caro jrd, boa semana também para si.

Caro zemanel, fui ler o Sérgio Ribeiro. Pronto, não fiquei convencido. Mas admito que o problema esteja em mim. Não sou do género de ficar convencido logo às primeiras.

JR

zemanel disse...

Caro JRC
não pretendia convencê-lo!
E julgo que o JRC também não pretendia converter um comunista que fosse, ao menos um!
Ambos estamos na blogosfera por muitas razões: mas onde o desejo de conversão de infiéis está perfeitamente ausente.
O sentido do meu comentário tinha como único objectivo ajudar quebrar a barreira de pensamento único estabelecida em redor do muro. Ou seja quebrar um bocadinho o espírito transmitido pelos media em que quase se julgaria que toda a humanidade estaria cantando e rindo, saudando Lech Walesa e afins.
Cumprimentos, pois claro,
zémanel