27 novembro, 2009

MACBUDA




Poderá parecer bizarra a ideia de um mosteiro budista na Escócia. Convém, no entanto, não ser precipitado no juízo.
Por que razão não nos parece bizarra a ideia de a Europa seguir uma religião cuja génese está numa seita do Médio-Oriente? Por que razão não nos surpreende a presença de uma cruz? Nem a nossa filiação à religião judaica? Por causa da tradição. Mas uma tradição baseada em factos puramente contingentes.
Nós, na Europa, na Europa que vai de Lisboa a S. Petersburgo, passando pelas aldeias irlandesas e as altas montanhas da Escócia, não somos judaico-cristãos do mesmo modo que o urso-polar está programado para viver em terras frias e a arara em terras quentes. Nós somos judaico-cristãos porque um conjunto de circunstâncias levaram a que tal acontecesse. Acontece que puros e microscópicos acasos poderiam ter feito com que as coisas fossem completamente diferentes. Bastaria S. Paulo morrer afogado ou Constantino ter uma personalidade diferente.
Nós, porém, estamos habituados a olhar para certas realidades históricas como se fossem essências eternas e imutáveis.
Mas não são. Por que razão, na Bósnia, europeus loiros e de olhos azuis se viram para Meca para rezar? E por que razão não há procissões na Dinamarca nem os holandeses pedem o que quer que seja a Nossa Senhora? Por causa de factos contingentes.
Ora, poderia ter acontecido, séculos atrás, por razões também contingentes, que a Europa tivesse sido "evangelizada" por monges budistas. E assim já não nos surpreenderia a existência de um mosteiro budista na Escócia. Haveria milhares deles na Europa. E porque seríamos todos budistas. Seria tão normal ver um templo budista como uma Pizza-Hut. Estranho seria ver nesta Europa um templo com uma cruz em cima.
A história é um processo aberto e dinâmico. Sempre foi e sempre será. Mas há quem olhe para a História como se esta reproduzisse as leis da natureza.

6 comentários:

jrd disse...

Interessante. Apenas um detalhe nada despiciendo; não acredito que a Sonae Sierra do Deus Belmiro tivesse permitido a existência mais templos Budistas do que templos da Pizza Hut.

addiragram disse...

Se eu tivesse ido para Glasgow nos anos 70, como chegou a estar previsto, toda a minha história teria sido diferente...Assim é, sempre, em grande escala. A rigidez imutável como, por vezes,se olha o que nos rodeia é fruto de uma necessidade, impossível, de segurança que o imutável supostamente confere. A seguir vem a intolerância...

Margaridaa disse...

O raciocínio é interessante, mas não posso deixar de me surpreender, como é que uma pessoa que me parece culta e que tem cuidado no que escreve, chama "seita" ao budismo?!

(Claro que cada um é livre de escrever o que quer, assim como qualquer outro é livre de reagir.)

José Ricardo Costa disse...

Cara Margaridaa,

O budismo nunca esteve associado ao Médio-Oriente mas ao Extremo- Oriente e nunca a Europa alguma vez seguiu, ou segue, uma religião cuja génese estaria no Extremo-Oriente.
A religião que a Europa segue e cuja génese está numa seita do Médio-Oriente é, naturalmente, o Cristianismo. Hoje é uma religião mas começou efectivamente como uma seita. Aliás, penso que as duas frases seguintes reforçam bem a ideia.
Ainda assim admito que possa não ter sido claro não deixando, por isso, de agradecer a questão.

JR

José Ricardo Costa disse...

Cara Margaridaa,

O budismo nunca esteve associado ao Médio-Oriente mas ao Extremo- Oriente e nunca a Europa alguma vez seguiu, ou segue, uma religião cuja génese estaria no Extremo-Oriente.
A religião que a Europa segue e cuja génese está numa seita do Médio-Oriente é, naturalmente, o Cristianismo. Hoje é uma religião mas começou efectivamente como uma seita. Aliás, penso que as duas frases seguintes reforçam bem a ideia.
Ainda assim admito que possa não ter sido claro não deixando, por isso, de agradecer a questão.

JR

Margaridaa disse...

Esclarecida,José. Obrigada pelo cuidado, eu realmente não tinha percebido bem.

De resto, acho que o que escreveste e o que escreves, muito interessante .

Bom domingo.