30 novembro, 2009

HEIMAT


Se eu fosse suíço e a minha opinião tivesse sido ontem referendada, teria votado contra a construção de minaretes.
Não por motivos religiosos. Os muçulmanos que vivem na Europa deverão ter locais de culto como qualquer outra minoria. Mas reprovo a construção de minaretes numa cidade europeia do mesmo modo que reprovo uma maison alpina numa aldeia beirã ou minhota. As minorias têm direito à sua identidade desde que não desvirtue a identidade da maioria. Estamos a limitar a sua liberdade? Claro que estamos. Mas as pátrias existem e devem continuar a existir.
Eu posso gostar muito de ir ali a Espanha e sempre fui lá muito bem tratado. Mas é quando regresso de novo a Vilar Formoso que me sinto em casa. Eu posso sentir-me muito à vontade em casa de outra pessoa. Mas não estou como se estivesse em minha casa.
Os muçulmanos que me perdoem. Mas sendo eles tão sensíveis à questão da identidade cultural só terão mesmo que entender. Devem ser bem recebidos e merecedores da nossa hospitalidade. Mas devem também saber que têm a obrigação moral de respeitar a casa do anfitrião.

11 comentários:

leo disse...

Tenho que discordar. A relacao entre um imigrante e o país onde vive e trabalha nao é uma relacao anfitriao-convidado; a ideia dos Gastarbeiters mostrou-se um falhanco. Os imigrantes nao têm que ser "tolerados", contribuem isso sim de forma importante para a economia (e também para a cultura!) dos países onde produzem, pagam impostos e enriquecem a paisagem social.

O que se esperaria de um país resolvido e liberal é que respeite diferentes maneiras de viver dê aos seus diferentes grupos espacos para viverem as respectivas culturas.

joao alfaro disse...

A nossa liberdade será a nossa forca. Aceitamos tudo dos outros, mesmo que os outros sejam intolerantes. Na vida, que é um jogo, as regras devem ser iguais para todos, quando assim não é vence sempre o falsário. Vivemos , de novo, na época do Império Romano. A barbárie está aí e nós entregamos o veneno aos que nos querem envenenar, em nome da democracia.

José Trincão Marques disse...

O problema é que já existem cidadãos de nacionalidade suíça que praticam a religião muçulmana (alguns deles nascidos na Suíça).
Não me tinha ocorrido a utilização do argumento do direito urbanístico, para tornear o argumento do atentado à liberdade religiosa... (OK, a Suíça é um Estado democrático, com liberdade de expressão e de culto religioso, mas não são permitidas obras de construção civil com determinadas características). Bem pensado.
Fará sentido (ou será democrático)os Estados democráticos proibirem a existência de organizações ou de instituições não democráticas? Onde é que esta ideia nos conduziria em Portugal?

disse...

Gostei muito do post e identifico-me totalmente com o ponto de vista nele expresso. Os muçulmanos, que tantos exemplos de tolerância dão ao mundo, têm todo o direito de construir minaretes -- nas suas terras, onde não raro perseguem à bomba os outros credos. Consta que Kadafi (o nome leva um H algures, não me lembro onde) tem um mapa que inclui a Península Ibérica nos territórios do Islão a recuperar. Se não nos acautelarmos, nós (ou os nossos descendentes por nós) ainda acabamos a decorar os versículos do Corão, impedidos de comer carne de porco e de beber o santo vinho, condenados a ver as mulheres de burka. (Veja-se o Kosovo.)Para eles, é uma guerra santa. Para nós, tolerância e compreensão. Até o papa teve de se desculpar por ter dito umas verdades que os ofenderam - mas não os ofende o massacre constante de civis indefesos em nome da tal guerra santa. Enquanto não vir esses muçulmanos bonzinhos nas ruas a protestarem contra a matança, a escorraçarem das mesquitas os fanáticos e a entregá-los à justiça, não me convencem que o Islão é aquilo que dele dizem os ocidentais politicamente correctos, aqueles que nos podem fazer perder esta guerra civilizacional.

jrd disse...

O buraco da Suiça que já foi do Gruyère, é cada vez mais do Emmental e o país treme como um queijo fresco. É mesmo para esquecer...
Boa cimeira, perdão, semana.

estela disse...

acho o post engraçado. pensei que fosse falar do que seria da suiça a ter aquela "gritaria" que sai dos minaretes cinco vezes por dia.

discordo do post, como discordo de alguns comentários.

por uma simples razão:
que pátria é a minha, se eu a divido com pessoas que não quero que façam parte dela? e que diz isso do meu conceito de tolerância?

Anónimo disse...

O problema não é só estético, é também o que representam esses minaretes como ameaça para o registo civilizacional onde se pretendem inserir. E que não se venha dizer que há na Suiça uma viragem à extrema-direita por causa do resultado do referendo, antes a preocupação e a incompreensão, porventura, do cidadão confrontado, no seu quotidiano, com uma realidade, em muitos aspectos, contrária à tolerância e compreensão que ainda vai sobrevivendo na matriz europeia. Enquanto os muçulmanos não derem prova inequívoca do seu empenho na defesa desses valores e se não deixarem das típicas ambiguidades que têm mostrado, nomeadamente na Suíça, nas suas posições perante algumas das mais cruentas situações verificadas tanto nas nações islâmicas como nas comunidades radicadas na Europa, não poderão esperar outros resultados que não este. O medo é um factor muito forte. Uma nota final: é sempre curioso ouvir vozes ligadas ao PC muito preocupadas com a questão moral, em abstracto, do atentado à liberdade religiosa que representa o não aos minaretes, passando uma esponja pelo privilégio e colagem claros à igreja católica, porque tal interessa politicamente, sem se lembrar, sem nenhum arrepio na consciência, que outros credos deveriam ser tratados em situação paritária. E onde se passa (e passou) tal: num município bem perto de si, neste Portugal de brandos costumes, chame-se ele Beja, Setúbal, Almada...
João Santos

marteodora disse...

Zé, o que seria da Península Ibérica se não fosse a Reconquista Cristã? Seria, provavelmente, um reduto mouro na Europa, cheio de minaretes.
Será que a PI permanecerá para sempre Católica, Cristã? E no Islão? Durará para sempre a inabalável fé em Alá?

Até concordo com o teu post. Pensar assim faz-me sentir mais confortável (nem sei bem porquê).
Porém, há uma relatividade das coisas da qual não se pode fugir.

Emília Ferreira disse...

Concordo contigo, Zé. Em nome da tolerância, o Ocidente tem vindo a abrir portas à intolerência de outros que condenam a nossa maneira de pensar e de viver. O fanatismo religioso (venha ele de onde vier) é sempre anti-democrático; nega sempre o direito à diferença. E eu acho que temos o direito e o dever de defender o que somos (a nossa identidade) e o que isso nos custou a conquistar. Em Roma sê romano, não é? Então, precisamente porque se eu for a um país muçulmano tenho de cumprir as regras, agradeço o respeito devido às minhas convicções, à minha cultura, aos meus direitos, na minha terra. Não estou a dizer que a Europa é só para os europeus, mas é verdade que conseguimos neste canto do globo alguns direitos que outros povos ainda não conseguiram. Devemos abdicar deles assim tão levianamente?

hg disse...

Eu concordo com a tua posição, Ricardo. A arquitectura faz parte da identidade de um país, assim como a língua, a literatura, a história, etc.
O "elemento novo" numa sociedade é saudável e haverá sempre, contudo não deve estar descontextualizado e "desenraizado" dessa mesma comunidade, deve ter um ponto de equilíbrio e não se deve impor.

Reinaldo Amarante disse...

O problema, quanto a mim, não são os minaretes, enquanto construção, edifícios. As leis urbanísticas encontrarão as soluções mais adequadas para não ferir o ordenamento. Nem a ""gritaria" que sai dos minaretes cinco vezes por dia.". Afinal, há torres sineiras que tocam "Avé, Avé" de quarto em quarto de hora... através de altifalantes...
O problema reside no facto da maioria das religiões cristãs considerar a sua difusão uma MISSÃO mas os muçulmanos fazem dela uma GUERRA SANTA. Potencialmente, quem não é muçulmano é INFIEL. É isso que me assusta.