15 novembro, 2009

EVANGELHO SEGUNDO HERMÈS


O PÚBLICO de ontem trazia um suplemento de luxo, a Primus, revista que é editada juntamente com o jornal uma vez por ano. Graficamente luxuosa, nela só encontramos produtos de luxo. Relógios Baume &Mercier a 6000 €. Braceletes Hermès a 64.000 €. Cozinha gourmet. Luxuosas decorações, carros de luxo, viagens de luxo.
Podemos achar tudo aquilo supérfluo e que seria preferível viver num mundo onde nada daquilo existisse e em que seríamos todos iguais na humildade e modéstia. Não me parece. Se nada daquilo existisse, muito provavelmente viveríamos ainda pior numa igualdade ainda mais humilde e modesta.
É muito mais engraçado viver num mundo onde se sabe que tais produtos existem mesmo que não tenhamos acesso a eles do que num mundo onde o luxo não existisse. O pobre, num mundo onde não existisse o luxo, seria ainda mais pobre. A necessidade que muitos de nós sentem em chegar àquele mundo acaba por favorecer o mundo no seu todo. O problema dos pobres não são os ricos. Não é por haver relógios de 6000 € que há pessoas a viver mal. Em primeiro lugar, há pessoas que vivem mal simplesmente porque não são capazes de viver bem. Depois, há pessoas que vivem mal porque os países em que vivem são politicamente mal geridos. Ou porque são efectivamente pobres.
O luxo é a cenoura presa à cabeça da sociedade para a fazer mexer. Os pais sabem que não são ricos, mas sabem que são mais ricos do que foram os seus pais, esperando ainda que os seus filhos possam vir a usufruir de uma riqueza que eles próprios não conseguiram alcançar.
A humanidade pode não ficar muito bonita neste retrato. Mas confessemos que não é fácil trocar um relógio de luxo e um carro com estofos de cabedal por meia-dúzia de linhas do Evangelho.

7 comentários:

Anónimo disse...

Os biólogos fazem o estudo de sustentabilidade de um ecosistema a partir do maior predador seguindo a cadeia alimentar até á sua base.
Por exemplo, uma comunidade de X leões necessita de Y zebras que por sua vez necessitam de Z hectares de pasto. Ou seja, X leões necessitam para a sua sobrevivência de Z hectares de vegetação embora não sejam herbívoros.

Seria interessante ver os economistas a fazerem o mesmo exercício.

Ficávamos a saber quantos putos subnutridos a trabalhar 18 horas por dia são precisos para justificar a existência de cada Rolls Royce.

Ver a ganância como propulsor civilizacional, é um bocado cínico. Nao?

jrd disse...

Não faço ideia alguma de quanto valem meia-dúzia de linhas do Evangelho, mas tinham que ser muito valiosas para poderem ser trocadas por um relógio de luxo e um carro com estofos de cabedal.
Digo eu, que não entendo nada de trocas e muito menos de baldrocas, mesmo com a etiqueta da Hermès.

José Ricardo Costa disse...

Compreendo. Acontece, porém, que os seres humanos não são propriamente leões e zebras, tratando-se, por isso, de uma falsa analogia.

Um Rolls Royce está muito longe de ser feito à custa do sacrifício de subnutridos. Mais lógico será pensar que aquele Rolls Royce matará a fome a muita gente.

Quantos operários devem o seu emprego à ganância de tantos empresários que procuram a riqueza e o luxo para alimentar a sua vaidade e vontade de poder?

JR

José Ricardo Costa disse...

Caro jrd, eu, pessoalmente, acredito que algumas do Evangelho até valem bem mais do que o relógio de luxo. Mas perante a presença de um bezerro de ouro, não há valor que resista. Está nos livros.

JR

Alice N. disse...

O problema, quanto a mim, não é haver ricos, mas a forma como alguns (muitos?) chegam a essa riqueza. Os ricos darão directa ou indirectamente emprego a muita gente, mas quantas vezes isso não acontece à custa de mão de obra-de-obra barata e escravização dos empregados? O facto de um rico "oferecer" algumas migalhas, em vez do pão que o trabalhador merece, não o torna menos imoral. Num mundo ideal, os ricos seriam um pouco menos ricos e ninguém viveria miseravelmente (claro que só isso não chega, mas ajudaria). Não acredito nem desejo uma sociedade onde sejamos todos iguais (bastam-nos os exemplos que conhecemos), mas também abomino sociedades como a nossa, onde vergonhosamente tem vindo a aumentar o fosso entre os muito ricos e os muito pobres que, muitas vezes, se matam a trabalhar em tarefas árduas, socialmente desvalorizadas e, porém, necessárias. A exploração do Homem pelo Homem (no sentido de escravização) é do mais triste que há na humanidade. De resto, nada tenho contra os objectos de luxo e muitos são bem bonitos, sim senhor.

graça martins disse...

Caro José Ricardo, eu que já te vi de Diane e a andar a pé na ladeira acredito que não precisas de RRs para te sentires mais rico (até porque és professor:-)

...e vejo a riqueza tão desprovida de sentido que só os "adornos", sejam eles quais forem, lhe trazem a necessidade de alguma satisfação efémera.

Claro que um prato de comida é bem vindo em casa de pobre, mas lá onde ela mora, sempre vi mesa pronta e porta aberta. O relógio H e o RR não é mais o pavor de alguém se sentir desacreditado naquilo que é?
lindo, lindo é mesmo um relógio com os ponteiros parados e muito miolo.
abraço abundante,
de graça

José Ricardo Costa disse...

Graça, não é uma Diane, é uma 4L. Um carro lindo. Adoro a cor da ferrugem na chapa branca e aquele musgo nos vidros tem um impacto poético a roçar o bucolismo.
Abraço,

JR