22 novembro, 2009

ESTÁDIO DA LUZ


A frase “Liberdade, igualdade e fraternidade” decorre de um período histórico conhecido por Época das Luzes ou Iluminismo. Chama-se assim porque se acreditava que a razão seria um farol que tiraria a humanidade da escuridão, da ignorância, da superstição, da pobreza.
Tal como um arquitecto projecta no seu ateliê uma cidade perfeita, o filósofo iluminista acreditava ser possível construir racionalmente uma sociedade ideal sob o lema “Liberdade, igualdade, fraternidade”.
Das três palavras, a segunda é a mais complicada, embora houvesse quem tentasse passá-la à prática. Sabemos hoje qual foi o resultado. Estados totalitários e repressivos. Milhões de inocentes mortos, presos, torturados, exilados. Sociedades cinzentas apesar de uma sofisticada propaganda que passava a imagem de um homem novo.
Há, porém, situações informais em que um sentimento de igualdade pode espontaneamente ocorrer. Comecei por falar do Iluminismo, entro agora no Estádio da Luz.
Quando o estádio enche para ver o Benfica ou a selecção, há uma experiência social de igualdade. Estamos todos a puxar para o mesmo lado. O interesse de um é o interesse de 60 000. A alegria e a tristeza de um são a alegria e a tristeza de 60 000. E conversa-se e festeja-se com o vizinho do lado, ainda que não saiba o seu nome ou profissão, se é engenheiro ou sapateiro, se vive num bairro social ou numa vivenda de luxo. Ora, se isto não é igualdade vou ali e já venho.
Pensar em igualdade de um modo saudável, só será possível de uma forma natural e espontânea, nunca por decreto-lei e com um controlo policial. Ninguém, no Estádio da Luz, é obrigado a sentir-se igual ou a ser igual.
Vendo bem, mesmo ali somos diferentes. Uns emocionam-se mais, há quem esteja calado, há quem ouça o relato enquanto vê o jogo, há quem feche os olhos nas jogadas de perigo, há quem beba cerveja, há quem beba sumo, há quem não beba nada. Mas sentimo-nos todos iguais. Ou melhor: somos efectivamente iguais.
Pronto, pronto, já sei que a esta hora já há quem me chame lírico e diga que a vida não é o Estádio da Luz. Ora, aceito que posso ser lírico quando passeio pelo campo e oiço os passarinhos e chilrear. Mas também sei que há sociedades mais igualitárias do que outras sem ter sido preciso um Partido ou um semideus para implementar a igualdade. Foi conquistado naturalmente. Como? Pela cultura, pela religião, pela educação.
Curiosamente, alguns dos países onde a igualdade é maior contam-se entre os mais ricos do mundo. Ou seja, onde há gente muito rica. E já que estamos no domínio da curiosidade, é também engraçado pensar que nesses países onde a igualdade é maior, a luz do sol faz-se sentir muito menos do que em países como Portugal, onde as desigualdades são mais chocantes, e no Inverno as noites são bem maiores do que os dias.
A luz do Estádio da Luz não é, decididamente, a luz do Sol iluminista. Até porque, se há luz, é porque é de noite. Sem o perigo do Sol ardente de certos ideais fazer mal às cabeças das pessoas.
In Jornal Torrejano

3 comentários:

jrd disse...

Ele há cada apagão...

Anónimo disse...

A sensação não é bem de igualdade. É mais comunhão.
O espaço onde ocorre não é bem estádio.
É mais catedral.
Os desacatos e pancadaria, não são bem violência.
São mais confrontos de fé.

A religião organizada tapa o sol com a peneira em conivencia com a peregrinação para a Luz.

Mudam-se os imperadores, mudam-se os deuses. Haja pão e circo.
McDonalds e futebol...

Fred disse...

Excelente artigo!


Um abraço.