11 novembro, 2009

DURKHEIM NA PASSAGEM DE NÍVEL


Muito, mas mesmo muito longe de mim, querer vir aqui explorar o trágico suicídio de Enke de um ponto de vista pessoal. O grande guarda-redes deixou uma carta de despedida e, por respeito perante a sua memória e privacidade, espero que o seu conteúdo nunca venha a ser publicamente revelado. Mas, ao mesmo tempo, o suicídio de um alemão levou-me a pensar no seguinte.
Existe hoje uma certa concepção política e sociológica da felicidade. Ou seja, a ideia de que a felicidade de cada indivíduo está muito dependente das condições sociais, políticas e económicas de um país. E, se virmos bem, até acaba por ser verdade. É mais fácil um dinamarquês sentir-se feliz do que um nigeriano. Acredito que os portugueses que vivem no Luxemburgo serão lá mais felizes do que se tivessem ficado no vale do Ave ou na sua aldeia beirã ou alentejana.
Mas há que igualmente perceber que existe um território pessoal, impermeável a quaisquer condicionalismos de natureza política.
Embora o Estado tenha obrigações perante os seus cidadãos, o Estado jamais deverá querer tornar as pessoas felizes. Ou manifestar concepções de felicidade. O Estado serve para fazer escolas e dar educação aos seus cidadãos, fazer hospitais e contribuir para ajudar esses cidadãos na doença, construir cidades para seres humanos, apoiar a cultura, etc. E chega. A partir daqui fica ao critério das pessoas saber o que as faz felizes ou infelizes. Quase sempre que o Estado quer fazer as pessoas felizes, acaba por contribuir para a sua infelicidade.
Enke, sendo alemão não se matou por viver na Alemanha, uma das maiores economias do mundo, um dos países onde 4/5 da população mundial mais ambicionaria poder viver. Fosse ele nigeriano e provavelmente não se teria suicidado, ocupado que andaria com a sua sobrevivência.
A alma das pessoas não tem é judia nem grega, não é escrava nem livre, não é homem nem mulher. E foi essa alma que levou o grande guarda-redes a libertar-se de si mesma.

7 comentários:

VNI disse...

José Ricardo

Podia escrever muito acerca deste seu texto porque acho-o sublime. Escrever bem sobre um assunto que só dá vontade de chorar e nos emociona é uma enorme virtude. Fico sempre muito feliz quando leio
quem assim sabe escrever, e olhe que eu leio muito...

José Ricardo Costa disse...

Cara VNI, apesar do exagero, agradeço as suas palavras. Um abraço.

JR

Arisca disse...

Há alturas da vida em que olhamos para a frente e a verdade é que não conseguimos ver o caminho. Vemos muros intransponíveis que nos sofocam.
Temos dificuldade em compreender aquilo que nunca vivemos...

*Bons ventos,
Arisca

jrd disse...

Não foi a angústia antes do penalty,terá sido a angústia depois... dos pontapés da vida.

TERESA SANTOS disse...

A sensibilidade daquele Homem era incompatível com o mundo em que vivemos. Tão simples como isto!...

VNI disse...

José Ricardo:

Desculpe mas não é exagero foi a verdade acerca do que senti quando li e a verdade, ainda que pessoal e "um erro á espera de vez" como diria o meu autor Maior merece ser dita!!!Escreva sempre!

Anónimo disse...

É um post interessante cujo conteúdo pode ser completado pela interessante reflexão de jean Amery em "Atentar contra si" que a Assírio e Alvim editou há poucas semanas.


Artur Morão