03 outubro, 2009

UMA RAPARIGA EUROPEIA

Aos 9 segundos deste pequeno filme surge uma rapariga à janela. É uma jovem rapariga europeia chamada Anne Frank que, pouco tempo depois, deixaria de poder aparecer junto à janela para viver escondida, antes de ter sido levada para um campo de concentração.

Há aqui uma enorme ironia. A única imagem em movimento que temos da jovem é a chegar a uma janela. Quando o que mais sabemos dela é o facto de ter vivido uma parte da sua vida longe das janelas, na obscuridade de um buraco como se fosse um rato.

Vê-se aqui um pequeno átomo de vida num dia normal de uma normal cidade europeia. Há um casal de noivos, estão a ser filmados, há alguma agitação, e há uma rapariga que surge rapidamente à janela certamente chamada por essa agitação. Pouco tempo depois, sem ter feito mal a ninguém, passa a viver escondida, pouco tempo depois morre em Bergen-Belsen.

Não foi na Idade Média, não foi na noite de S. Bartolomeu, não foi na Sevilha da Contra-Reforma. Ainda ontem tive aqui a almoçar um alemão que, neste preciso dia em que Anne Frank surge à janela, já era nascido. Tive ontem aqui a almoçar um alemão que, no dia em que nasceu, mandava no seu país, digamos que um antecessor da senhora Angela Merkel, um senhor austríaco chamado Adolph Hitler.

Foi, portanto, no século XX, o século em que eu também nasci. Na Alemanha de Kant, de Bach, de Beethoven, de Schiller, de Göethe, de Wundt. O primeiro cientista a querer investigar a sério a consciência humana. Razão tinha o outro que dizia não ser possível estarmos à janela e, ao mesmo tempo, a passear na rua, vendo-nos à janela a vermo-nos passear na rua.

1 comentário:

Alice N. disse...

Fiquei fascinada com este pequeno filme cuja existência desconhecia. Já tive oportunidade de visitar a casa onde Anne Frank se refugiou e, escusado será dizer, a emoção foi enorme, principalmente ao entrar no seu quarto, onde ainda se podem ver alguns posters que Anne Frank colocou nas paredes. Imagino, então, como será visitar um campo de concentração... Da minha parte, está programado para o próximo Verão. Calculo como será terrível.

Ainda há pouco estávamos aqui em casa a falar dos horrores da II Guerra Mundial, a propósito do livro "A Segunda Guerra Mundial" de Martin Gilbert (D. Quixote). Ainda não o li, mas parece que é uma obra excelente.

É, de facto, incrível o que aconteceu, sobretudo se pensarmos na época e local em que ocorreu e o grandioso povo que esteve na sua origem. Já estive algumas vezes na Alemanha, mas confesso que, durante bastante tempo, não senti a menor vontade de visitar o país, devido às imagens que tinha da II guerra mundial. Admito que tinha muitos preconceitos em relação aos alemães e fiquei agradavelmente surpreendida quando fui à Alemanha pela primeira vez. Hoje, é mesmo um dos países que mais aprecio (com especial preferência por Munique e Berlim).

Passados estes anos, é difícil compreender que um povo tão amável e educado e que tanto deu ao mundo tenha assim seguido um louco sanguinário. Resta-nos esperar que a história não se repita. Mas, com as ameaças que pairam sobre a civilização ocidental, poderemos realmente acreditar?