03 outubro, 2009

TORRE DE BABEL

Pieter Bruegel, Torre de Babel

Isaiah Berlin escreveu um excelente ensaio sobre Tolstoi chamado O Ouriço e a Raposa. A páginas tantas, cita uma passagem de Guerra e Paz: "If we allow that human life can be ruled by reason, the possibility of life is destroyed". [Epílogo, parte I, capítulo 1]

O tradutor da edição portuguesa traduz sem mácula: "Se permitirmos que a vida humana seja regida pela razão, a possibilidade de vida é destruída". Certíssimo, nada a dizer. Ora, acontece que na minha tradução de Guerra e Paz feita directamente do russo por Nina Guerra e Filipe Guerra, a frase surge assim: "Se admitirmos que a vida humana pode ser gerida pela razão, eliminar-se-á a possibilidade de vida".

Eu, pobre leitor que não sabe russo, fico sem saber o que diz Tolstoi. Sei o que diz Berlin, que sabia russo. Sei o que diz o casal Guerra, que sabe russo. Mas não sei o que diz Tolstoi. Porquê? Na verdade, "allow" pode ser dito com o sentido de "admitir". Mas o sentido mais comum da palavra será, em português, "permitir", "sancionar", "aprovar". Daí a opção do tradutor português. Só que "admitir" e "permitir" conduzem a duas frases completamente diferentes. "Permitir", significa que somos livres de o fazer. Gerir a vida pela razão depende da nossa vontade. Podemos permitir ou não permitir. Permitir X significa deixar que X aconteça. "Admitir", por sua vez, terá mais o sentido de reconhecer. Admitir que X é Y significa reconhecer, ter consciência de que X é Y sem que isso dependa da nossa vontade.

Daí eu estar metido num labirinto. Como português, lendo o original inglês, não sei o que quer dizer Berlin com "allow". Quer dizer "permitir" ou "admitir"? O tradutor português acha que é a primeira opção. Intuitivamente, parece a opção mais correcta. Mas porque deverei pensar que a tradução dos Guerra estará errada? Só o original russo me poderia salvar. Acontece que eu não sei russo. Mas, mesmo que soubesse, não me valeria de muito. Eu também sei um bocadinho de inglês e não sei o que significa aqui "allow".
O melhor é mesmo não pensar mais nisto.

5 comentários:

estela disse...

ora eu acredito mais nos guerra:
allow no sentido de permitir seria allow to - acho eu claro ;)
estando allow that, tem o sentido de adimitir.
até porque os guerra traduzem "pode ser" e não seja - que é o que lá está em inglês.

o que me preocupa mais é a segunda parte ;)
é destruida a possibilidade da vida, ou elimina-se ?

bela ajuda, não??? ;)

Alice N. disse...

O ideal seria podermos ler todos os livros na sua língua original, pois, por muito boa que seja a tradução, nunca é a mesma coisa. E quando se colocam dúvidas ou erros de interpretação, pior ainda.

Não tem que ver com o texto, mas aproveito para aconselhar a exposição "Arte Partilhada", uma mostra da colecção de arte do Millennium BCP. Fui vê-la hoje. É pequena (apenas 40 obras) mas muito rica. A iluminação é que deixa muito a desejar, ao ponto de, nalguns quadros, se verem largas sombras das molduras. É uma pena. Mesmo assim, fiquei encantada. Está em Évora até ao fim do mês, no belíssimo Palácio D. Manuel. Antes, esteve em Bragança e em Aveiro. A seguir, vai para a Madeira. A entrada é gratuita e o catálogo de quase 100 páginas custa 5€. (Apesar do preço simbólico, ainda ouvi quem protestasse por não ser oferecido; enfim!)

http://www.cm-evora.pt/pt/conteudos/eventos/arte%20partilhada.htm

http://www.millenniumbcp.pt/pubs/pt/grupobcp/fundacaobcp/accaomecenatica/cultura/article.jhtml?articleID=553359

José Ricardo Costa disse...

Por acaso até foi uma bela ajuda por causa da subtileza do allow that e do allow to. Só que o problema é ainda mais profundo. Repara na frase: "Se admitirmos que a vida humana pode ser gerida pela razão, eliminar-se-á a possibilidade de vida"

Ora, admitir tem um sentido teórico, o tal sentido de reconhecimento. Mas a eliminação da possiblidade de vida sugere uma dimensão prática ou moral. Ou seja, que depende da vontade humana. Portanto, não bate a bota com a perdigota. Se a opção certa for o "permitir" combina melhor. Ora, os Guerra podem saber muito bem russo. Mas, provavelmente o Berlin conheceria melhor o Tolstoi enquanto escritor e pensador da História. Olha, deixa lá.

JR

estela disse...

desculpa, insisto só mias esta vez.

eu traduzia o berlin assim:
se aceitarmos que a vida humana pode ser regida pela razão, acaba-se com a possibilidade de haver vida.

mas enfim, é a minha versão ;)

rematando: já chegaste ao epílogo!

José Ricardo Costa disse...

Alice, obrigado pela informação. Já estive a consultar o link e parece-me ser uma excelente exposição. Quanto ao modo de exposição, pelos vistos, trata-se de um problema geral. Não sei se se lembra, já na exposição do Fantin Latour havia quadros em que nos tínhamos que posicionar quase acrobaticamente para os podermos ver. Enfim.

JR