15 outubro, 2009

SOCIOLOGIA


Se eu agora abrisse um blogue e lesse isto "Este ano calhou-me dar filosofia. Logo eu que embirro com a filosofia, como se fosse uma espécie de sarna mental.", iria sentir-me incomodado. Estudei e estudo filosofia, sou professor de filosofia e consideraria pouco elegante associar a filosofia a uma sarna mental. Não pensei nisso quando escrevi este post. Pronto, não pensei. Peço, por isso, desculpa a qualquer possível leitor ligado à sociologia que tenha lido o post. Não deveria tê-lo escrito.
Por estranho que pareça eu tenho um enorme respeito pela sociologia enquanto ciência. O mesmo que tenho pela história ou pela biologia. Tenho um irmão licenciado em sociologia. Algumas das pessoas que mais admiro intelectualmente em Portugal pertencem à área da sociologia. Há livros de sociologia que são absolutamente incontornáveis mesmo para alguém que seja de filosofia.
O meu problema com a sociologia começou a partir do momento em que transformaram a sociologia tanto numa ideologia como numa espécie de tecnologia social. E eu, como professor, como quase todos os professores e quase todos os alunos, tornámo-nos vítimas inocentes dessa ideologia e dessa tecnologia.
A partir desse momento, a minha embirração com a sociologia começou a atingir níveis assinaláveis, se bem que um certo tipo de "discurso sociológico" me tivesse sempre incomodado. Ensinar sociologia faz, de certo modo, sentir-me cúmplice dessa ideologia, dessa tecnologia, desse discurso.
A sociologia, admito, não tem qualquer culpa. Prometo que irei tentar protegê-la.

6 comentários:

estela disse...

tinha lido o comentário no outro post e o que pensei logo foi numa discussão dos meus tempos de estudante: na altura falava-se em mudar a filosofia do secundário para "história das ideias" e deixar a filosofia para a universidade.
suponho que a sociologia e o plano de estudos a que actualmente está submetida no secundário sofre também com isso.

mas escrevo este comentário por outra razão: se eu desse aulas de filosofia e me calhasse ensinar Quine em vez Kant tambem pensava na sarna ;)

ps - na minha modesta opinião: abrir um blog qualquer, ler uma coisa assim ao calhas e não pensar antes de comentar é um fenómeno sociológico pouco elegante!

Anónimo disse...

A crescente importância de uma tal coisa, reveste-se de importância suprema quando se dogmatiza tudo o que daí advém.
Como afirmou Victor Hugo
"metam o martelo nas teorias e façam" ( nota não foi o Cardinalli...)
A tal da Sociologia é uma espécie de substituto moral para ateus e descrentes que dela fazem albergue espanhol para usos e costumes.
Quanto ao nível dos alunos ele reflecte apenas a exigência vigente: nada de pensamento crítico ou próprio. Debitando Manuais se vai longe, evitando pensar...

Micha disse...

Desculpa a ignorancia e ja aviso que nao sou da area do ensino... mas gostaria de saber o porque vcs professores aceitam lecionar disciplinas que nao sao da vossa formacao? Quem vos obriga a ensinar o que nao estao preparados para ensinar?

Anónimo disse...

Feliz da voz, sem ironia, que sabe ler e perceber até onde se pode, com simples palavras, humilhar o que não nos agrada, seja pelas mais grandiloquentes razões, seja pela mais epidermica reacção. E estou a ser, pode crer, sincera até ao âmago do meu ser, passe a hiperbole da expressão. O mesmo se não pode dizer dos comentários que acompanham o seu post. Como comentário último, porque creio não merecer mais do que isso da sua atenção, feliz do bloguista que assuma comentários contrários, em tudo do ser, que é o seu, como aludia Camões, como os de apaniguados fanatizados como descobri aqui bem perto.
Siga sempre, irónico ou não, com razão ou não, mas siga, isso sim é preciso, navegar.
Cumprimentos,
Isabel Santos

José Ricardo Costa disse...

Micha, deverias fazer um curso para poderes entender certas coisas da educação em Portugal. Queres um conselho? Não penses mais nisso.
JR

Sérgio Lagoa disse...

Inteiramente de acordo.

Não só o ensino de Sociologia se encontra ideologizado, como o mesmo sucede com um dos seus sucedâneos, a Área de Estudo da Comunidade. Existe claramente um (pre)conceito de carácter político e ideológico com o qual se lavam as cabeças às criancinhas - e aos professores...