19 outubro, 2009

POSSO FALAR, CERTO?


Eu não sei se a Bíblia é um manual de maus costumes e um catálogo de crueldades. Não sei, nem me interessa. Sei apenas que se o cidadão e escritor José Saramago pensa isso da Bíblia tem todo o direito de o dizer. O mesmo direito que outros têm de dizer que a Bíblia é a palavra de Deus e que salva a alma de quem a lê.
José Saramago não matou ninguém, não queimou ninguém, não perseguiu ninguém, nem acho que tenha insultado alguém. Nem sequer cuspiu sobre o livro nem o rasgou aos bocadinhos perante as televisões. Limitou-se a dar uma opinião. A sua opinião. Se ele acha que a Bíblia é um manual de maus costumes, quem somos nós para achar que ele não deve achar? E mesmo que achemos que não deve achar, devemos aceitar que ele ache.
Mas que raio de mundo é este em que a opinião de um homem, a sua mais que legítima opinião, provoca assim tanto alarido? Infelizmente, José Saramago, ao contrário de Maitê Proença, não se pode despir para compensar os ofendidos dos seus desvarios opinativos.

14 comentários:

Austeriana disse...

Sim, de facto, Saramago tem todo o direito de opinar sobre o que lhe vier à cabeça. Isso também significa que quem discorde dele pode fazê-lo, ou a opinião de Saramago sobre a Bíblia é "sagrada" e não pode ser contrariada? O facto de acharmos que ele não deve achar não implica ficarmos calados. Quer simplesmente dizer que temos opinião diferente da dele e também nós, humildes leitores, temos direito a achar e a expôr o que achamos.
Acresce que o alarido está a dar lucros: subitamente, a venda de "Caim" aumentou muito. Portanto, o segundo Nobel português está de parabéns graças ao alarido.

Anónimo disse...

Muito bem dito! Um excelente Post este. Subscrevo inteiramente.
P.Rufino
PS: ...ocorreu-me, a propósita de certas críticas, os crimes da Inquisição, to say the least...

disse...

"Se ele acha que a Bíblia é um manual de maus costumes, quem somos nós para achar que ele não deve achar?" Pois, o problema é que há já demasiada gente a achar demasiadas coisas num país tão pequeno, que ainda por cima tão pouco tem achado desde o achamento do Brasil. É o "pensar", o "achar", o "julgar" que questiono, não a liberdade de estudar, analisar, propor teorias, fundamentando-as com as necessárias evidências. As declarações de Saramago visam promover através do escândalo a sua nova obra, como, aliás, já fez em muitas outras ocasiões, com o proveito que se conhece. É um óptimo exemplo de arrogância e de desonestidade intelectual.
Declaração de interesses (como agora se costuma fazer): irrita-me o homem, não a obra. Gosto muito de Levantado do Chão, Memorial do Convento, Jangada de Pedra. E invejo a imaginação dele.

José Ricardo Costa disse...

Cara Austeriana, eu acho bastante saudável o facto de haver pessoas que não concordem com José Saramago. E que desejem mostrar que ele não tem razão. A isso chama-se discutir. Mas eu ainda não vi ninguém a tentar mostrar que ele não tem razão. Vi apenas pessoas muito indignadas com o que ele disse. Como se a religião e a Bíblia fossem vacas sagradas nas quais não se pode tocar. Não são.E diz bem: o alarido está a dar lucros. Mas, já agora, de onde vem o alarido?

JR

José Ricardo Costa disse...

Caro Cipriano. Na sua opinião, portanto, José Saramago não pode achar nada? Ele escreve um livro que envolve questões religiosas. Mas, depois, não pode dizer o que acha da religião pois o país é demasiado pequeno para se poderem achar coisas? Já agora, posso também achar algumas coisinhas ou já não tenho espaço? Se for caso disso, irei achar para Espanha. De Sevilha a Bilbao há-de haver um cantinho onde eu possa achar à vontade.
JR

Nefertiti disse...

Eu concordo com o Saramago e contigo, Ricardo.
O escritor tem todo o direito de opinar. Fez uma constatação apenas, óbvia, para uns, e inaceitável, para outros.
Eu já tinha dito o que o Saramago disse e borrifaram para o assunto!!! :))
Os lucros do alarido vai para a comunicação social que também precisa, ora pois então.
o possível interesse em ler a Bíblia... pode ser uma vantagem desta polémica.

José Borges disse...

Faz lembrar-me daquela música do Zé Mário Branco, FMI, quando a alturas tantas ele pergunta: 'Mas pode falar-se. Ou já não se pode?'

disse...

Sobre o novo livro de Saramago, só li o início, não me posso pronunciar. Sobre a liberdade de pensamento e de opinião, deixei bem claro que não questiono o direito de estudar, analisar, criticar; questiono os palpites avulsos, as frases bombásticas, que não correspondem à obra em causa - A Bíblia. Seria como se eu me pronunciasse sobre a qualidade de um dos romances de Saramago a partir da leitura de fragmentos avulsos, descontextualizados, utilizados de forma provocatória, tendo por fim não um melhor conhecimento da matéria, mas a minha facturação. Sobre a Espanha, disso sabe mestre Saramago. E, finalmente, sobre os achamentos de Saramago, "acho", também eu, que em vez de palpites devia verter na sua obra as suas sensações e pensamentos. Se, como disse, ainda só li o início desta, invoco em meu socorro a anterior, a Viagem do Elefante e o seu anticlericalismo primário.
Um deus passeando na brisa da tarde, de Mário de Carvalho, é uma obra notável, que não precisou desta publicidade para se afirmar - basta a obra, e não é nada cristã.
Como pode Saramago ler a Bíblia e não ficar deslumbrado com o Cântico dos Cânticos, com o lamento de Job, só para recorrer a dois exemplos desta obra que tem inspirado toda a literatura ocidental, venha ela de crentes ou de ateus?
Se ele tivesse marrado com a Ilíada e os seus horrores desta forma ligeira, leviana, eu indignar-me-ia na mesma. Certas afirmações carecem de fundamentação sólida e certas pessoas têm especial responsabilidade naquilo que "acham". Saramago, pelo respeito que me merece a sua obra, é uma delas. É só isso.

Austeriana disse...

JRC,
A primeira pessoa a tentar provar que tem razão devia ser Saramago. As declarações foram dele. Argumentos? Ouvi um conjunto de afirmações proferidas com ligeireza.
Em relação aos mecanismos subjacentes à produção literária, Saramago tem responsabilidades acrescidas, uma vez que é nesse meio que se move. Qualquer ser humano que costuma ler sabe que as conjunturas em que surge um qualquer escrito têm implicações sociais, históricas,... Retirada de contexto, qualquer obra pode ser ridicularizada. Na minha humilde opinião, não é numa conferência de imprensa que se vai reflectir sobre os efeitos da Bíblia na Humanidade, a não ser que seja para criar polémica. Se foi esse o caso, tiro-lhe o chapéu. Foi uma excelente operação de marketing. Se não foi, é um disparate. Quanto ao alarido,além do que tenho lido na net e ouvido na rádio, limitei-me a citá-lo a si. A palavra está no seu post.

Austeriana disse...

Como refere que ainda não viu ninguém tentar mostrar que ele não tem razão, sugiro-lhe a leitura de um excelente post sobre este assunto, com o título
"Intimidade(s)" no blogue «Call me Ishmael», da blogspot.

AnaT disse...

Perfeitamente de acordo, principamente com este frase "Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus". Jose Saramago pode muito bem dizer o que pensa e nao tem que se justificar nem argumentar.

nefertiti disse...

errata: os lucros vão (por que tem que me acontecer isto? castigo de Deus?!)

manufactura disse...

A beataria que nunca leu o texto sagrado agora de cabeça perdida questiona: Mas quem é que teve a infeliz ideia de dar uma caneta ao Saramago quando era criança, esta alma tortuosa?
Vá mas é lá ler o texto inspirado:)páginas de depravação, insanidade e subversão e depois ao sétimo dia tapem-se todos bem tapadinhos:)

C.M. disse...

Subitamente, decidi voltar a ler a Bíblia de modo sistemático: vou abri-la no Génesis... o caminho é longo mas luminoso. Obrigado, Saramago!