01 outubro, 2009

PORTAS ABERTAS




Um dos aspectos mais intrigantes dos irmãos Portas é o facto de terem podido habitar um mesmo útero. Há um elemento nuclear que pode explicar as claras divergências nas suas identidades e ideologias: o complexo de Édipo.

O pai de ambos é um homem de esquerda, comunista e ateu. A mãe, pelo contrário, uma senhora conservadora e católica. Miguel resolveu muito bem o seu complexo de Édipo: identificou-se com o pai para continuar a estar nas boas graças da mãe, assumindo claramente a sua masculinidade. Já o processo de Paulo é bem mais complexo. Em vez de se identificar com o pai, imita o catolicismo, o conservadorismo, a etiqueta da mãe. O que não deixa de ser problemático num rapaz. A estratégia de Paulo para conquistar a mãe é bastante confusa, pondo em causa a matriz masculina da sua identidade.

Paulo Portas, no seu afã de conquistar a sua láctea mãe, passa a usar uma estratégia engenhosa mas algo perigosa: tornar-se na própria mãe. Enfim, uma espécie de versão democrata-cristã do Psicho de Alfred Hitchcock. Eis o problema de Paulo: já não precisa de conquistar a mãe pois, no fundo, já a projectou na sua própria identidade. O seu grande objectivo passa então a ser a possibilidade de usar essa identidade para conquistar o pai divorciado: se o pai, apesar de esquerda, gostou de uma mulher católica e conservadora, a Paulo Portas só resta mesmo ser católico e conservador.

Compreende-se assim bem o fervor patriótico de Paulo. Porque razão dá tanta importância à pátria (de pater, pai) e à questão da identidade? Porque não a tem. O adulto Paulo vive ainda perdido no meio de uma identidade difusa. Procura ainda o homem (o reflexo do pai) que há dentro dele e que ainda não conseguiu encontrar. Eis pois a razão pela qual valoriza tanto o hino nacional: ele sabe, inconscientemente, que o herói (o pai) está no mar. Sim, o que é para Paulo, o seu pai? Um herói do mar: longe, distante, ausente, entre as brumas da memória. Cantar o hino é pois uma forma de chamar diariamente pelo pai, de o obrigar a lembrar-se que Paulo existe, um pouco como aquelas crianças que se atiram para o chão a fim de chamar a atenção dos pais quando estão distraídos.

Sabe igualmente que o esplendor de Portugal tem de ser levantado, isto é, há uma problema na identidade pátria (e não de mater) que ainda não foi resolvido, uma certa angústia sebastianista marcada pelo reencontro com o “desejado” que haverá de perturbar os nocturnos sonhos de Paulo, longe dos holofotes das feiras e das conferências de imprensa.

Miguel, pelo contrário, tendo já o problema da identidade há muito resolvido, fica completamente disponível para a mudança e para a revolução. Graças ao pai, o filho Miguel pôde assim dar uma forte consistência a um eu que possa resistir a toda a mudança e diferença. É também por isso que Miguel, no âmbito do BE, pode mostrar toda a sua compreensão e apoio em relação ao outro, seja este toxicodependente, homossexual, guineense. E é fácil perceber porquê: tendo uma forte identidade, Miguel não tem medo de a perder perante a presença do outro. Miguel sabe que o outro não representa qualquer ameaça, nem tem medo que esse outro se possa transformar num espelho diante de si próprio.

E Paulo? Pelo contrário, tem horror ao outro, porque ele próprio é também o outro que não gostaria de ser. Paulo sabe que tem uma identidade truncada, uma falsa identidade, mas apesar disso, prefere conservar obstinadamente essa identidade, a ter que ser confrontado com outras. Paulo só se sente bem nas feiras, no meio dos lavradores e das peixeiras pois há em todos eles uma certa ideia de Portugal. Sente-se, finalmente, um homenzinho.

6 comentários:

addiragram disse...

Uma reflexão psicanalítica bem consistente. Voltarei a este post daqui a alguns dias! Até lá.

Ega disse...

Mas afinal o caro José Ricardo é filósofo ou é psicanalista?

José Ricardo Costa disse...

Meu caro, nem uma coisa, nem outra. Esmiuçando o problema, não passo de um pobre truão.

JR

josé albergaria disse...

Caro amigo,
Algumas precisões.
O arquitecto Nuno Portas (pai do Miguel, do Paulo e ainda da Catarina, também Portas, mas irmã daqueles por parte do Pai, não sendo Sacadura, portanto)não é comunista , nem nunca o foi e, menos ainda, ateu.
Nuno Portas vem de uma familia de agrários riquíssimos do Alentejo (o tio Carlos Portas é uma das figuras gradas dessa familia)e, cedo, aproxima-se de um dos mais brilhantes grupos de intelectuais do século XX, todos católicos, mas militantes do Vaticano II: João Bénard da Costa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Nuno Bragança, Sousa Tavares (acresce ainda, que, este, ainda, é monárquico, marido da Sophia e pai do Miguel...)Maria Belo,Nuno Teotónio Pereira,Vasco Pulido Valente, Alçada Baptista,Helena Vaz da Silva (fundadora do Centro Nacional de Cultura, hoje dirigido por Guilherme d'Oliveira Martins), Joana Lopes e etc.
A sua análise fica um pedaço desarticulada, pois partiu de um pressuposto inexacto: pai comunista e ateu; mãe conservadora e católica.
Como o Miguel ficou com o pai, a osmose resultava;
Como o Paulo ficou com a mãe a osmose resultou.
Nem isso.
Precisa de conhecer melhor a biografia dos manos.
Ambos frequentaram o mesmo colégio, de jesuitas, o S. João de Brito.
O Miguel, no tempo da revolução, passou-se para a escola pública.
O Paulo, no tempo da revolução, "fugiu" para Paris.
Eles fazem uma diferença de idades razoável.
Quando o Paulo Portas volta, teria os seus 14 anos, já polemiza com o Eanes, nas páginas do Jornal.
Nessa época adere ao PPD (explica-se ele à posteriori, pelo fascínio de Sá Carneiro..).
Quando o líder do PPD morre em Camarate, fica "órfão" politico e só muito mais tarde se aproxima do CDS.
É o estratego da campanha presidencial de Basilio Horta, na recandidatura de Mário Soares, em 1990.
A partir daqui, o meu amigo, por certo, já tem informação consistente.
Abraço,
José Albergaria

José Ricardo Costa disse...

Caro JA,

Quanto ao ser comunista, um amigo já me tinha feito notar que lhe parecia nunca ele ter sido. De qualquer modo, trata-se apenas de um pormenor pois, inequivocamente, é um homem de esquerda e anti-fascista. Quanto ao aspecto religioso, eu iria jurar que tinha lido, há uns anos, uma entrevista na qual afirmava que não era religioso. Poderei ter feito alguma confusão. Admito que sim.

Ora, como não quero deitar fora a minha espectacular e sensacional teoria acerca dos Fabulosos Irmãos Portas, risco o comunista e ateu, ficando apenas o ser de esquera. Chega perfeitamente. Pai de esquerda e mente aberta. Mãe de direita e conservadora. Considero-me salvo.

Grande abraço e venham de lá essas correcções sempre que eu esteja errado. Serão sempre bem recebidas. Ao estimados leitores deste blogue as minhas desculpas por eventuais erros factuais.

JR

osé Albergaria disse...

Bem rematado.
Um abraço,
José Albergaria