20 outubro, 2009

O CAVALO DE APELES





Neste post da Margarida, foi feito um comentário muito interessante a respeito do facto destas suas fotografias estarem tremidas devido à ausência de um tripé.
Ora, por causa disso, lembrei-me da história do cavalo de Apeles contada por Sexto Empírico nas suas Hipotiposes Pirrónicas. Apeles era um grande pintor grego que, um dia, ao querer pintar com grande realismo a baba de um cavalo, não o conseguindo, atirou desesperado a esponja contra a imagem. Reparou então que ao atirar furiosamente a esponja acabou, involuntariamente, por conseguir o efeito que tanto pretendia.
No processo artístico é normal ocorrem situações destas. A mim não me interessa saber o processo através do qual a Margarida fez estas duas fotografias. O que me interessa é o que eu ali vejo. É isso que distingue a arte da engenharia e até do artesanato. Na engenharia e no artesanato o que conta é a perícia manual. O que conta é a mão. E não há produto sem mão. Na arte, pelo contrário, como acontece com o cavalo de Apeles, a obra autonomiza-se relativamente à mão. Naturalmente que na arte clássica, pelo seu rigor formal, tal seria mais difícil de acontecer. Só que a linguagem artística moderna tem pressupostos que na arte clássica seriam impensáveis. Daí a importância da espontaneidade, do improviso ou até de uma certa inconsciência durante o trabalho artístico.
Estas duas fotografias da Margarida, para alguns, poderão ser fotografias estragadas. Para mim são duas belíssimas fotografias.

5 comentários:

addiragram disse...

A espontaneidade é a mais pura manifestação do nosso self mais autêntico e isso fica plasmado no acto criativo.

graça martins disse...

de facto! curiosa a necessidade de a "cultura" geral impor o gosto da mecânica à actividade humana, depois de tantos anos de demonstrações sublimes da mais humanista das naturezas. vi uma vez Chagall a ocupar as dimensões de 3 andares de um teatro NYorquino. nunca até aí tinha tido a "visão" do que era o esplendor daqueles anaformismos. sentir como possível, a aparição de uma narrativa baseada em registos pulsares, saturações de cor e gesto. quanto ao tripé, que faria o nosso Noronha da Costa depois de tantos anos a pintar as miopias do nosso olhar: http://fineartsportugal.com/shop/index.php?cPath=47_21_65&osCsid=976b432f0bba76c6c43b7c5dc28046ae

As fotos da Margarida e as tuas são inspiradoras e gostei de ver este post falando bem e em defesa de uma coisa que tanto (é o que se diz) faz falta a TN: um olhar mais apurado e a compreensão dos sentidos|TODOS! padecendo das tradicionais nevralgias culturais, também tão naturais como uma foto a que parece faltarem três pés para o sustento da mão.

abraços
mgm

Nefertiti disse...

para é uma fotografia bem à maneira impressionista. gosto muito.

maria disse...

Líndissimas as fotografias; pela luz, pela textura, pela cor...
Quanto ao vosso blog, concordaria que não há nada mais livre que um relógio parado mas acrescentaria, também, nada mais inútil. No entanto, como gosto das coisas independentemente da função que desempenhem ou não e acho que a forma também vale por ela mesma... soube-me bem o que por aqui vi e li. Por curiosodade... o meu pai chama-se Apeles, como o pintor!
Um 2010 como queiram que seja.

José Ricardo Costa disse...

Cara Maria, obrigado pelo comentário. Há coisas engraçadas. Li há pouco o seu comentário no A Ver o Mundo e, na sequência disso, fui espreitar o seu blogue. Visualmente belíssimo. Entretanto, quis deixar um comentário mas não consegui. Depois, passei por aqui e vim dar com o seu comentário.

Assim sendo, desejo-lhe, aqui, um bom ano!
JR