04 outubro, 2009

GUERRA E PAZ - LXX

Já no epílogo, Tolstoi dá-nos uma imagem espantosa dos grandes heróis. Sugere que pensemos num rebanho no qual existe um carneiro que o pastor coloca separadamente para engordar antes de o abater. Este carneiro julga-se, naturalmente, especial. Os outros carneiros olham-no, certamente, com inveja e admiração, vendo-o comer muito mais e sem se misturar. Longe estarão todos de imaginar que o que torna o seu desino invejável se confunde com o seu sacrifício. Enquanto os outros continuarão a viver, este carneiro irá para o matadouro.
A analogia de Tolstoi visa um contexto muito preciso, um contexto que faz lembrar o Hegel da "astúcia da razão": o papel dos heróis, dos grandes protagonistas da História.
Só que eu quero ir ainda mais longe. Até que ponto, olhando à nossa volta, muitos dos carneiros para os quais olhamos com inveja enquanto engordam, não serão as principais vítimas que correm, sôfregas e inchadas, para um matadouro existencial?

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